1968 por Mouzar Benedito

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A texto a seguir é de Mouzar Benedito e foi publicado originalmente no site da Fundação Perseu Abramo. Falamos mais de Mouzart em outro post. A caricatura é de Paulo Caruzo.

 

Eu estudava Geografia na USP, onde entrei em 1967, e tinha completado 22 anos. Na noite de 13 de dezembro, estava com amigos no Centro de Vivência do Crusp (Conjunto Residencial da USP), onde morava, vendo TV, à espera de notícias que a gente sabia que não seriam boas. E vieram muito piores. Era a ditadura pra valer, explícita. Entendemos na hora que começaria uma fase de horror. Muitos queimavam ou enterravam livros “comprometedores”. Meus três colegas de apartamento e eu decidimos sair esparramando esses livros por casas de gente sem envolvimento político, para pegar depois que a poeira baixasse. Nunca mais vimos esses livros. Apagamos da memória esses endereços.

Na mesma noite, de madrugada, a direita já se manifestou: um bando do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e de militares passou de carro pela avenida entre o Crusp e o rio Pinheiros dando tiros em nossa direção. Alguns tiros de fuzil atravessaram as paredes de tábua de uns poucos apartamentos. Aí fizemos barricada em volta do Conjunto, mas nada adiantou. No dia 17, uma força militar enorme, preparada para a guerra, cercou o Crusp, que junto como o prédio da Filosofia da Maria Antônia concentrava a contestação estudantil ao regime militar. Fomos presos. Eu fiquei quatro dias no presídio Tiradentes e algumas horas no Dops, onde fui interrogado e fichado, porque acharam material “subversivo” na cabeceira da minha cama: uma revista Paz e Terra com foto de Dom Hélder Câmara na capa. Quando saí, fui buscar minhas coisas no Crusp e vi que nossos apartamentos tinham sido saqueados pela polícia e pelo exército. Sobrou, de tudo o que eu tinha, uma malinha de livros ensebados, que não valiam nada pra serem vendidos nos sebos, e uma de roupas velhas. Aí fui preso mais uma vez, pelo exército. Mas tudo suave. A tortura que foi instituída a reboque do AI-5 chegou um pouquinho depois. “Tive sorte”, posso concluir.

Na Secretaria dos Transportes da Prefeitura, onde trabalhava como técnico em contabilidade, fiquei com fama de terrorista, já que tinham tentado me visitar no Tiradentes e eu estava incomunicável. O que se seguiu foi um tempo (anos!) de enorme insegurança. A cada dia, tínhamos a notícia de algum amigo ou conhecido que tinha sido assassinado pela repressão, ou se exilou ou foi preso e estava sendo torturado. Para usar uma expressão atual, ficávamos sempre nos sentindo a “bola da vez”, pois bastava alguém falar seu nome na tortura ou acharem seu endereço na caderneta de um preso para você se tornar um “perigoso terrorista”. A tensão era permanente. O país ficou parecendo insuportável, mas ao mesmo tempo tinha uma coisa melhor que hoje: a esperança. Mesmo perseguidos e ameaçados, tínhamos a esperança de mudar o Brasil para melhor. Acreditávamos que derrotaríamos a ditadura e tudo mudaria…

Outra coisa que tínhamos certeza nos tempos de vigência do AI-5 era que do nosso lado, das vítimas e dos lutadores, estávamos os bons. Do outro estavam os maus. Fernando Henrique Cardoso e muitos outros professores da USP foram aposentados com base no AI-5. Ele se auto-exilou no Chile. Nós, estudantes, fizemos muitas manifestações a favor dele e dos demais aposentados pela ditadura que tinha como expoentes civis uma gente horrorosa, tipo ACM, Maluf, Sodré, Marco Maciel e Sarney. Nós arriscamos nossa pele defendendo, entre outros, FHC contra essa gente. Que ironia, hein?

Mouzart Benedito

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6 Respostas to “1968 por Mouzar Benedito”

  1. simone Says:

    MEU PAI CHAMA-SE GUSTAVO ESTEVES VILLAREAL…JA OUVIU ESTE NOME? SUMIU EM MEADOS DE 71, PRESO AQUI EM PORTO ALEGRE, ENVIADO A CAMPOS DE JORDAO, ERA BOLIVIANO. SÓ TENHO ALGUMAS FOTOS E MAIS NADA…SABE COMO POSSO VERIFICAR SE EXISTE ALGUM TIPO DE LISTA DE DESAPARECIDOS PELA DOPS?

  2. José Antonio Küller Says:

    Eu não tenho informação que possa ajudá-la. Fiz uma pequena pesquisa e não encontrei o nome de seu pai nas listas disponíveis em “Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos” ( http://www.desaparecidospoliticos.org.br/quem_somos_comissao.php?m=2 ) e em “Grupo Tortura Nunca Mais” ( http://www.torturanuncamais-rj.org.br/md.asp?Refresh=2008081510593557980691&tipo=0 ).

    Os links acima dão acesso a sites de grupos organizados que podem mais ajudá-la na busca. Seria bom entrar em contato com eles.

    De nossa parte, podemos publicar com destaque a sua mensagem e solicitar ajuda aos nossos leitores. Se você achar isso interessante, informe seu nome completo e um e.mail para contato.

    • Cláudia Says:

      Sr José escrevo para informa-lo que conseguimos encontrar meu pai, o mesmo foi expulso do Brasil e retornou pra Bolivia onde reside atualmente. Muito obrigado por tentar me ajudar. Um abraço!

  3. Simone Says:

    Boa noite,
    encontrei somente hj esse site, onde consatei uma grande semelhança, uma pessoa com mesmo nome que eu, a procura da mesma pessoa, em questão GUSTAVO ESTEVES VILLAREAL. E foi com lamento q li sua resposta. Mais obrigada.

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