68 – Cenas

by

por Eduardo Sposito

Cena 16 – CASAMENTO TRAÍDO

Nós achavamos que estávamos fazendo todas as revoluções. Por isso as cerimônias de casamento também tinham que fugir à normalidade. Casei-me em 71, e não podia ser diferente.

O casamento foi realizado na capela do seminário em que estudei, no Jaçanã, zona norte de São Paulo (Hoje lá é um hospital psiquiátrico, não sei bem).

Negociei com o celebrante (que tinha sido o Diretor do Seminário) a liturgia para a cerimônia, que foi totalmente alterada. Basicamente: a noiva e o noivo entrariam juntos com os pais até o altar, onde os pais seriam dispensados com um discurso da noiva. Em seguida a cerimônia de mútua aceitação e de amor, concluindo-se com um discurso do noivo, tentando explicar o sentido da cerimônia.

Até porque, como se diria hoje, era um casamento temático. O convite foi feito num duplicador a álcool (o mesmo que foi usado pros textos da Martha Harnecker) e a capa do panfleto dizia:”Eu vivo num tempo sem sol” – que era o tema do poema do Brecht que inspirou a peça Arena Conta Zumbi.

Em resumo, se dizia que aquele não era propriamente um tempo de festas, com colegas nossos presos, torturados e desaparecidos. E que o que desejávamos era celebrar o amor e convidar a todos para participar dele.

O fundo musical era adequado para isso:

A música do Vandré, o frevo “João e Maria“, onde ele dizia que o povo andava atrás de qualquer alegria e jogou sua esperança na cantiga de João para Maria, concluindo com: “Quem sabe o canto da gente, seguindo na frente prepara o dia da alegria”.

Depois entraria o trecho da peça “Arena Conta Zumbi” em que se musicava o poema do Brecht, “Na Selva das Cidades”. Lembro alguns trechos: (alguns são do poema, outros da adaptação feita pelo Guarnieri (se não me engano) com música de Edu Lobo).

“Nasci na cidade no tempo da revolta
todos os caminhos iam dar no despenhadeiro”
“Veja bem, que preparando caminho da amizade
não podemos ser amigos: ao mal vamos dar maldade”
“É um tempo de guerra, é um tempo sem sol”(estribilho)
“E você que me prossegue, e vai ver feliz a terra
Lembra bem do nosso tempo, desse tempo que é de guerra.
Porque essa terra eu não vou ver”

Ou como dizia o Brecht:
“E você, que vem na crista da onda em que nos afogamos
ao lembrar deste tempo sombrio, pensa em nós com bondade.”

E pra encerrar, o “Caminhando” do Vandré.

E aí é que vem a traíção…à cerimônia:

O Walmar tinha ficado encarregado da sonoplastia: colocar os Lps na Vitrola na hora certa e com a música escolhida.

No lugar do “Tempo de Guerra”, ele colocou o “Universo do teu corpo” da Taiguara, o que não foi tão mau, porque a música é ótima e o Taiguara, engajado. Mas o que eu não perdoei, foi trocar o “Caminhado” pelo “Jesus Cristo, eu estou aqui” do Roberto Carlos!

Ele alegou não ter encontrado os discos, mas acho que ele tentava me “proteger” dos exageros esquerdistas.

Em todo caso não posso reclamar, porque o Walmar tinha sido vítima de um sequestro relâmpago pelos paramilitares da Operação Bandeirantes (braço armado marginal da repressão), colocado numa das terriveis Veraneios, ameaçado de morte se não se afastasse dos comunistas e abandonado num matagal.

Como se vê, foram aqueles bandidos que inventaram o sequestro relâmpago

Cena 17 – CANTIGAS DE EM…BALAR

Aproveitando a deixa da Cena 16, gostaria de lembrar músicas que embalavam o nosso (ou pelo menos, o meu) sonho revolucionário. Algumas só fizeram sucesso na época, ou só no meio dito “engajado” e hoje são pouco lembradas.

Muitas vezes uma palavra ou expressão, ou um modo de cantar adquiriam um sentido que pra nós era suficiente.

O teatro forneceu um bom repertório para isso:

O “Morte e Vida Severina” com o funeral do lavrador, (“Essa cova em que estás com palmos medida/ …é a terra que querias ver dividida”). Um trecho muito bonito era o da “Moça da Janela” que dizia que “aqui só prosperam aqueles que fazem da morte ofício ou bazar”.

O “Arena Conta Zumbi” com o trecho citado na cena 16, e cujo maior sucesso foi “Upa Neguinho” na voz da Elis.

O “Show Opinião” com Nara/Bethania, Zé Keti e João do Vale: “podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer… que eu não mudo de opinião” – e a mais conhecida “Carcará

O “Chiclete com Banana”, do Boal, baseado na música do Jackson do Pandeiro e que desmacarava a utilização da música popular pela mídia a serviços dos americanos, com trechos interessantes de entreguismo (“Até minha gente do morro só canta bolero e versão.Trocaram meu samba, coitado, por um piano alemão), até a reação contra a invasão de “mambo, rumba made in USA (iuesseei)”, cantado “Voltei pro morro, onde está o meu cachorro, meu cachorro vira-lata, minha cuíca, meu ganzá. Voltei pro morro, mas onde estão minhas chinelas que eu quero sambar com elas pelas ruas da cidade. Voltei! Voltei! Ah, se eu não mato essa saudade eu morro. Voltei”

E na época saíram Lps com as músicas dessa peças. O “Chiclete..” eu tenho.

Queria lembrar algumas que eu acho esquecidas:

Do Vandré, além do “João e Maria” da cena 16, lembro-me do “Porta Estandarte”, cantado pela Tuca, no festival da Excelsior em que a Elis ganhou com “Arrastão” de Edu e Vinicius. O refrão do “Porta Estandarte” era: “Na avenida girando o estandarte na mão pra anunciar”

Ainda do Vandré, a música do “Hora e a vez de Augusto Matraga”, mais ou menos isso:

“O que sou nunca escondi.
vantagem não contei.

Muita luta já perdi, muita esperança gastei
Até medo já senti, e não foi pouquinho não.
Mas fugir, nunca fugi. Nunca abandonei meu chão
O terreiro lá de casa não se varre com vassoura
varre com ponta de sabre, bala de metralhadora
Quem é homem vai comigo, quem é mulher fica e chora
Quero a quem anda comigo, sua vez e sua hora”

E tinha o Cesar Roldão Vieira. Se não me engano era dele, cantada pela Elis:

“Sapato de pobre é tamanco, a vida não tem solução.
Morada de rico é palácio e casa de pobre é barracão
A mulher do branco é esposa, a esposa do negro é mulher.
Mas minha mulher é só minha, e a do branco eu não sei só dele é.
A terra do dono é só dele, ali ninguém pode mandar.
Mas se eu não pegar na enxada, não tem ninguém pra plantar.”

Em resumo: não dava pra ficar alheio a isso tudo.

Tags: , , , , , , , , , , , , , ,

Uma resposta to “68 – Cenas”

  1. maristela Says:

    Eu amo essa época da juventude inconformada, os jovens de hoje não são como os da década de 60, 70. Stella

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: