Reminiscências

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por Antonio Ozaí da Silva

Visitando o Blog do Ozaí, deparei com a matéria abaixo que tem tudo a ver com o Arquivo 68. Consultei-o sobre a possibilidade de postá-lo aqui e ele gentilmente nos visitou, gostou e gentilmente colocou lá um link de nosso Blog. (Antonio Morales)

Num tempo não muito longínquo éramos todos democratas. Lutávamos contra a ditadura militar, contra a violência institucionalizada e contra o dedurismo, oficializado dentro e fora das universidades.

Arriscávamos nossas vidas praticando, mais do que teorizando, o bom combate pela liberdade de expressão e de organização, pelo direito de greve, pelo direito de eleger diretamente nossos governantes. Éramos contestadores da ordem.

Era um tempo em que ser preso era um risco iminente presente nas atividades políticas mais simples: um discurso numa porta de fábrica, a participação numa greve, a propaganda política com pichações e afixação de faixas e cartazes nas madrugadas adentro. Tudo poderia ser motivo para tomar um ‘chá de banco’ em alguma delegacia ou passar umas boas horas preso até que viesse o ‘socorro jurídico’.

Lembro-me de certa feita quando colávamos cartazes divulgando o Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Fomos surpreendidos, abordados por policiais militares e literalmente jogados no desconforto do compartimento da viatura.

Nossa liderança, aproveitando-se da escuridão e da topografia da área e talvez por ser mais experiente, fugiu. Assustados como crianças diante do inusitado, espremidos naquele pequeno espaço do veículo, preocupávamos com o que poderia acontecer. Um amigo, mais fervoroso na fé que os demais, começou a rezar.

Outro, tenso, falava sem parar. Irritado, o policial deu-lhe um tapa no rosto. Afora a tortura talvez nada seja mais truculento e afronte a dignidade humana do que sofrer uma agressão deste tipo. Embora, o desprezo a outrem constitua uma forma potencialmente agressiva.

Fomos levados à delegacia. O delegado de plantão se divertiu muito com aqueles fedelhos metidos a revolucionários: fez cara e jeito de durão, ameaçou, aterrorizou. Só queria dar uma ‘lição’: após um bom tempo ali, sem contar com qualquer ajuda externa, a autoridade nos liberou – desde que um dos nossos pais comparecesse à delegacia.

Não lembro como; só sei que a certa hora da madrugada o pai de alguém chegou e fomos libertados. Nunca tocamos no assunto do ‘tapa na cara’ com o nosso companheiro. Mas isto deve tê-lo marcado, como a todos nós.

Éramos jovens sonhadores que pensavam mudar o mundo. Nem tínhamos a exata noção do que realmente era o movimento estudantil, suas tendências políticas, suas táticas e estratégias diferenciadas, a luta pelo poder.

Não sabíamos o quanto éramos manipulados por nossas supostas lideranças, preocupadas na verdade em tomar o poder e o controle da direção das entidades estudantis. Em nossa quase santa ingenuidade, não tínhamos a dimensão da complexidade da política. Tínhamos apenas a certeza de que era preciso fazer alguma coisa e que pensávamos que fazíamos a coisa certa.

Que fizemos a nossa geração? Que fizeram dos nossos sonhos? Onde andarão aqueles fedelhos que o tempo transformou em homens e mulheres responsáveis e adaptados? Alguns se tornaram líderes, outros seguidores; há os que foram bem-sucedidos profissionalmente, outros nem tanto.

Não sei dos outros, mas aprendi a desconfiar dos líderes, dos que precisam de discípulos a segui-los como mariposas em torno da luz – aliás, até se consideram “iluminados”. Compreendo os que necessitam de autoridades para seguir, mas prefiro os que investem na autonomia e na dúvida permanente.

Se eu pudesse aconselhar os jovens de hoje, diria: Duvide de tudo, de todos e até mesmo da suas certezas, por mais absolutas que pareçam!

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