Memória de músicas que não ouvi

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Em 1967 fui hóspede dos padre sionitas, ali na Lino Coutinho, Ipiranga. Fiz grandes amigos no pedaço. Na sala de estar dos sionitas havia discos e revistas da França e do Canadá. Aprendi ali algumas coisas sobre o Québec Livre. Me apaixonei por Françoise Hardy. Voz pequena, afinada sensual. Escutei-a vezes sem conta naquela sala de estar. Tenho hoje quase todas as músicas da primeira fase da Françoise. Continuo encantado, mas agora percebo que a qualidade do conjunto que a acompanha é sofrível. Aliás, a cantora, crítica e irônica, disse numa entrevista que não compreendia seu sucesso, pois suas melodias pouco variavam e os arranjos de seus discos eram toscos. Mas ela era linda e sua voz encantava.

Escutei também vezes sem conta um cantor canadense. Meu francês nunca foi grande coisa. Mas daquele tempo ficou para sempre em minha lembrança a melodia de uma canção e os seguintes versos:

Je veux ceinturer madame la terre

Faire un equateur avéc des souliers

Ano passado, quis descobrir quem era o cantor que há mais de quarenta anos ainda ouço em alguma parte de meu cérebro. Não tinha certeza se meus guardados eram fiéis. Recorri à nossa memória ampliada dos tempos de hoje: a Web. Digitei os versos citados no Google. Para meu espanto, o francês estava aparentemente correto e alguém citava os mesmos versos num blog. Fiquei sabendo então que o cantor cujo nome havia sumido de minha lembrança é Claude Léveillé.

Neste vídeo do Youtube, Léveillé canta Frederic. Acho que era uma das músicas que tantas vezes ouvi na sala de estar dos sionitas. Encomendei um disco do cantor na Amazon. Infelizmente a música que marca minha memória não está lá.

Continuei a buscar na Web mais informações sobre Claude Léveillé. E acabei encontrando uma cantora fantástica: Ginette Reno. Ouvi alguns de seus sucessos no Youtube. E encomendei um álbum duplo de suas músicas dos anos de 1960. Uma obra eclética. Tem iê-iê. Tem músicas bregas. Tem obras primas. Nas fotos, Ginette aparece com aquele sorriso inocente das mocinhas de então. Cabelo a la homme. Algumas das melodias do álbum são conhecidas. Uma delas é uma versão francesa da “Noiva” (em português também uma versão, acho que gravada por Ângela Maria). Mas eu nunca ouvira a maioria das músicas. Fato de pouca importância. Assim que comecei a escutar Ginnette Reno, voltei aos anos sessenta. As orquestrações são tão familiares… e lindas. Aquela moda de subir meio tom da melodia lá pelas tantas já é esperada. A batida é inconfundível: puro sessenta. Ouço vezes sem conta. Tenho outra vez vinte anos.

Não preciso mais comentar memórias de músicas que não ouvi, mas parecem tão conhecidas. Vocês também sentirão o mesmo. Vejam Madame Reno cantando um twist.

Uma resposta to “Memória de músicas que não ouvi”

  1. Eduardo Sposito Says:

    Jarbas,
    também tive minha queda pela Françoise Hardy. Não tanto pela voz, mais pelo rosto e pelos cabelos. E parece que ela tá conservadona. A música de que me lembro falava em “Tous les garçons et les filles de mon âge…”
    Tive uma colega de trabalho que era a cara e o cabelo dela e chegou a “dar mole”. Mas, como marido fiel, fiz que não era comigo. E perdi uma grande chance de exercitar meu francês.
    Eduardo

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