Amizade e política

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Aconteceu em 1964, ou seriam nos anos seguintes?
Não me lembro bem. Meu pai, ferroviário, militante sindical,
eleito vereador e presidente da Câmara Municipal, foi cassado
pela Ditadura e interrogado pela sua polícia política.

Por pouco não se torna “desaparecido político” apenas por seus
discursos e lutas defendendo os trabalhadores da ferrovia e os
pobres. Mas foi salvo por uma amizade. Era amigo do peito e de
pescarias do delegado da pequena cidade onde exercia suas
atividades políticas.

Os “homens” apareceram por lá e levaram meu pai para
interrogatório na delegacia e na presença do delegado,
autoridade local, o amigo. Já foram logo acusando meu
pai de comunista, acusação recorrente na época contra
todos que discordavam da ditadura e sua política.
Serviu de pretexto para acusar, perseguir, torturar e
“desaparecer” com muita gente.

O delegado não se conformou. Apesar de temer “os homens”
disse:

– Puxa, eu vou pescar com esse homem todo dia, se
ele fosse comunista eu teria percebido. Ele é tão comunista
quanto eu. E vocês sabem que de comunista eu nada tenho!

Um ato de amizade e coragem.

No dia seguinte, minha mãe enterrou todos os livros que havia
em casa em um buraco bem fundo no quintal.
Por via das dúvidas, todos. Aqueles com algo vermelho na capa
ou com a palavra vermelho no título foram queimados, para maior
segurança.

Tempos cabeludos aqueles!

5 Respostas to “Amizade e política”

  1. Antonio Ozaí da Silva Says:

    Caro Antonio,

    obrigado pela indicação e parabéns por este blog.
    inclui um link no meu, pois é algo que merece ser divulgado.

    Abraços e tudo de bom,

  2. Victor Croffi Says:

    Legal, dei uma passada pra dar um alô!!

  3. jarbas Says:

    Tonhão,

    Afinal de contas,seu pai era ou não era comuna? Abraço, Jarbas.

  4. antoniomorales Says:

    Caro Jarbas…não sei bem, ele estava mais para um simpatizante das idéias socialistas e plataformas que eram discutidas no Sindicato dos Ferroviários que tinha várias influências, uma delas do PCB.

    Mas ele nunca foi filiado ao Partidão. Sua defesa dos direitos dos mais pobres e das idéias de esquerda era algo intuitivo, dada sua condição de trabalhador ferroviário e os debates no sindicato, especialmente por ocasião da preparação de movimentos grevistas.

    Tinha instrução primária e em casa havia alguns livros tipicamente de esquerda entre outros de capa vermelha que foram devidamente queimados por minha prestimosa e temerosa mãe.

  5. Ricardo Says:

    Vovó na sua pressa deve ter enterrado ou queimado algumas preciosidades. Mas comunista ou não o que Quinzinho não deixava de ser é pescador.🙂
    Abração!

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