Per una donna

by

1948. Data redonda. Tinha eu 18 anos e 8 meses.

Olho-me no espelho. Cadê o rapaz? O tempo passou, na janela, na rua, dentro e fora de mim. Um escritor, Wilson Jacob Filho, a propósito de assunto bem diverso desta reflexão diz: “Ser jovem ou ser idoso é atemporal”. Sorocaba, onde nasci, era pequena em 1948. São Paulo estava à uma hora de trem. Escolhi o Rio de Janeiro, disposto a nadar ou afogar-me “em água grande”. A inclinação do intelecto encaminhou-me para a comunicação: jornalista, publicitário, relações públicas, memorialista. Os ensolarados e os escuros caminhos palmilhados nos sessenta anos passados são lembrados, ridos e chorados, em meia-dúzia de livros (Um dia estarão disponíveis na Internet).

Rubens Nogueira

Um rapaz de bem, do bem, sem bens

 

 

Per una donna

              Ventos uivantes na janela. Fria manhã, recém madrugada. O zéfiro invade os espaços, no outrora verde vale das laranjeiras. Insone, penso, penso, penso. Peter O’toole encosta-se na menina. Ela se retrai. Ele pergunta: “sente o cheiro de urina? Está muito forte? Ela responde: está menos que no outro dia, – “pode me beijar o pescoço, mas não me lamba, já tomei banho… Cena evocativa. Já vivi mais ou menos como no filme Venus – uma biografia não autorizada? O que resta, senão lembrar o tempo que passou, passou: a journey to a star, would not be very far. Ambigüidades, sonhos, ilusões, “I got you under my skin, in the botton of my heart, and I’m a litle lamb lost in the wood...” e tudo sublimado pela força das circunstâncias… A amizade é um paradoxo, quando flui, por mais breve que seja, elabora a transformação do amigo. Ser amigo é sempre ser outro e, o mais importante, o melhor amigo é também outro de si mesmo, pois a amizade modifica os amigos. Qualquer laço libidinal, por mais distanciado e respeitoso que possa ser, quer possuir e anexar o próximo. Vai sem aspas. Chaim Samuel Katz nunca lerá isto e não saberá que é minha homenagem ao colega de curso de estruturalismo, há quantos anos? Ele tinha cabelo, eu tinha topete – com duplo sentido, por favor.  

            Dores de amor que não cessam, não importa se realizados ou não. Fuga na música e no sonho: our love is here to stay, not for a day, but forever and a day, quem dera!  Vai minha tristeza, diz a ela que, sem ela, não pode ser… que somente um dia longe dos seus olhos…o mundo inteiro se faz tão tristonho. Ah Johnny Alf, ah Lima Barreto, ah Cruz e Souza, ah Otélo. Noveleta, uma composição breve, de caráter romântico ou fantástico, sem delineamentos especiais de forma, gênero, criado por Roberto Schumann, compositor alemão (1810-1856). Eu sou mais, você e eu… Quero te ver ao vivo e a côres e te ouvir, quando exaltar tua beleza: menos, menos, me poupe. E corar, e me repelir, e dizer, ô homem atentado e, nos momentos descontraídos usar frases: vamo nessa? E em vez de faca de dois gumes, lâmina de dois legumes, lembra-se do amor, o sorriso e a flor? A poesia de bossa nova embalando quimeras, podem imaginar o que melhor lhes parecer, você que é bonita demais (la píu bella ragazza), este teu olhar tão juntinho ao meu, só tinha que ser com você, sabes que te quero, mesmo que fiques de mal. “El tiempo presente y el tiempo passado tal vez en el tiempo futuro estén ambos presentes. Y el tiempo pasado contenga el futuro”, é o que pensava T.S. Eliot. Teu rosto de  madona dos Alpes trentinos, teus cabelos de ouro, bastos e  compridos, tuas ancas bamboleantes dentro dos panos azuis, ó como dói, cachorra de um dono só, ai você me enlouquece, sua cavala béstia, que amo de paixão. “Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigí-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes”. Saramago, estou tentando.  

            Achava, jactancioso, ter escrito um romance para acabar com todos os romances. Qual! Trabalhou seis anos, para fixar em dezoito horas, cobrindo centenas de páginas, o que lhe ia na alma. Sementeira para muitos seguidores, nenhum, até hoje, com a mesma competência, talento, cultura. Tudo, no fundo, para exaltar uma mulher.  Isto é “Ulisses” de James Joyce. Paulo Coelho lembra que Jorge Luiz Borges disse, uma vez, que só existem mesmo quatro histórias para serem contadas: 1 – Uma história de amor entre duas pessoas; 2 – Uma história de amor entre três pessoas; 3 – a luta pelo poder; 4 – uma viagem. Será?  
            É duro o ofício de escrever. Essa verdade de José Saramago, quando o homem fala da mulher, faz lembrar Lacan: “Ele crê desejar porque se vê como desejado, e não vê que o que o outro quer lhe arrancar é o seu olhar”, citado por José Castello. E agora? Que faço do que sinto? Como explicar a você o que esse AMOR aqui delineado representa para mim? Cronos, cruel, crucifica criaturas. Eva, Helena, Julieta, Beatriz, Dalila, Isabel, Penélope, Heloisa, Mei-ling, Circe, e Você, tão longe e tão perto, sonho do meu sonho que, amiúde, às cegas, tateio nos labirintos do inconsciente, Vênus tornada Rebeca, que ilumina meus olhos e aquece minha vida. “Aquele que deseja, mas não age, fomenta a pestilência” – Blake. Como em Dom Giovani, “mi trema um poco il cuore” quando te vejo em nossos momentos, nossas trocas, nossa sintonia. Como viver sem ti, Meu Deus?    

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Uma resposta to “Per una donna”

  1. José Antonio Küller Says:

    Pensei muito a respeito da sua pergunta feita por e.mail e encaminhando Per una donna: o texto encaixa-se na temática de Arquivo68? Respondi:

    “Primeiro li o texto. Gostei muito. Reli. Gostei mais. Com o sentimento, avaliei que a publicação de Per una donna em Arquivo68 representaria um ganho qualitativo para o blog. Esse ganho seria ainda maior se pudéssemos contar com a sua adesão ao nosso grupo de autores.

    Com o pensamento, a primeira e superficial impressão foi a de que o texto diferia da temática do blog. Depois, reconsiderei. O texto fala de recordações não explicitamente situadas num tempo determinado. Mas, o contexto faz lembrar o início dos anos 60. O texto fala de sonhos. O autor fala do amor. A forma de falar do amor não destoa de 68.

    No blog, recentemente fiz uma homenagem a Manuel Bandeira. Publiquei um poema que não tinha uma relação direta com a temática de Arquivo68. A escolha incidiu sobre um poema que trata do amor. No blog, afirmei que esse tema foi muito relevante em 1968. Antonio Morales, um dos administradores do blog, também postou recentemente o artigo: 68 – As novas formas do amor. Acredito que o tema precise ser mais explorado. Seu post poderá incentivar novas contribuições, a investigação e a reflexão nessa direção.

    Concluindo, particularmente, considero o post pertinente à temática do blog e inclino-me a publicá-lo, se este for o seu desejo.”

    Esse foi o seu desejo e o texto foi publicado. Estou encaminhando o convite para que você (permita-me tratá-lo assim) se torne um dos autores do Arquivo68.

    Abraços

    José antonio Küller

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: