68 – CENAS

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por Eduardo Sposito

CENA 13 – O OPOSTO LADO

Eu também já fui da repressão. Pelo menos para a Professora Carmucci, do Curso de Ciências Sociais da USP.

Corria o ano da desgraça de 1969. Depois de dois anos afastado do Movimento Universitário, voltei para iniciar o curso de Ciências Sociais. A Filosofia da USP tinha sido expulsa da Maria Antonia e estávamos precariamente instalados nos famosos Barracos, próximos à Reitoria.

Eu tinha entrado no Vestibular de 68, que era aplicado pela própria Faculdade (antes da Fuvest e antes ainda do esquema Cescem-Cescea-Mapofei). A minha entrada se deu graças ao movimento que fizemos para que os excedentes fossem admitidos.

Eu era um dos excedentes. Excedente era o candidato que consegui a média de aprovação, mas pelo número de vagas não era admitido. Em Ciências Sociais eram 50 vagas. Com a nossa luta passou para 130, em 68. Eu era 0 132º, mas houve duas desistências e eu entrei.

Mas, em 68, eu estava trabalhando para ajudar meu pai e as aulas que eu consegui eram no período da tarde, o horário em que devia cursar a Universidade. Então tranquei matrícula e voltei em 69, quando consegui aulas à noite.

Com essas eu perdi a batalha da Maria Antonia e outras agitações universitárias, já que estava mais no movimento secundarista na Zona Norte. O pessoal do meu tempo de UEE, ou tinha fugido, ou estava preso ou clandestino. Como não tinha feito cursinho, naquele começo de 69 eu não estava enturmado.

Foi aí que a coisa pegou. Era uma manifestação contra a vinda do Rockefeller, realizada dentro do Campus, que consistiu basicamente em vários comícios.

Estava eu, durante a manifestação, conversando com outro calouro, quando sentimos que estávamos sendo observados.

Dentro daquela neurose do momento, fomos identificados como agentes da repressão. Nos dias seguintes houve uma espécie de isolamento. No meu caso foi pior, pois a Carmucci, cismou que tinha me visto no DOPS. O mais engraçado é que eu não conheci a Carmucci! Se encontrasse com ela não saberia.

Depois que a merda foi para o ventilador é dificil limpar a barra. Devagar, fui retomando os contatos antigos e os fatos foram desmentindo a versão. Mas não foi fácil.

Ah! o outro calouro envolvido foi o Laurindo Leal Filho, o Lalo que depois se formou em comunicação, foi da Associação de Docentes e hoje tem um programa sobre a qualidade da TV, no Canal Brasil.

Recentemente encontrei o Lalo no congresso da Associação de TVs comunitárias – a ABCCOM – onde foi fazer uma palestra e lembrei-o do episódio. Ele disse que aquilo foi tão chato pra ele que ele tentou apagá-lo da memória. Me arrependi de ter feito ele lembrar.

Que tempos aqueles! Provavelmente ele pode ter achado que eu era realmente da repressão, pois até eu pensei que ele podia ser.

CENA 14 – FESTIVAIS SECUNDARISTAS

O que alimentou muito o movimento político entre os secundaristas foram as atividades culturais. As escolas de 2º Grau tinham geralmente seu Grêmio ativo, com jornal, grupos de teatro, de poesia, de música e atividades sociais.

Daí para a realização de festivais de teatro e música, interligando as escolas foi um passo. Eu mesmo fui diretor de teatro (vejam só) no Ginásio Comercial de Jaçanã, e participamos com a peça “Procura-se uma Rosa ” do Pedro Bloch no festival do CEDOM (Colégio lider na Zona Norte, citado pelo Chiroque) e no festival estudantil realizado pelo Equipe Vestibulares (cuja atuação naquele momento merece ser estudada).

Me lembro do último festival realizado no Cedom, no segundo semestre de 68, e por incrível que pareça me lembro das letras e melodias das músicas. Antecipando o que aconteceria com o Vandré, a música mais aplaudida por ser politizada, não ganhou, ficando em 3º. Homenageava o Che, e dizia mais ou menos:

“Ele morreu meu irmão.
Ele morreu mas venceu.
Levanta seu braço
O exemplo está lá.”

A 2ª colocada, num ritmo gostoso, com uma letra ingênua, dizia:

“Blau, blau blau
Caçamba de pau
Gente na janela, gente cara de panela
Gente no portão, gente cara de feijão.

E a 1ª, um sambão falando de amor:

“Ora João, esquece a dor
Daquela morena que te deixou.
Vai e procura um novo amor
Que o samba não acabou

E pra não mais chorar (breque)

Vamos sorria, que hoje é dia de carnaval
e a tristeza vai ter seu final.”

Só não lembro os autores.

O que alimentava aquela garotada? Esta semana, o Frei Betto esteve aqui em Rio Preto na Bienal do Livro [14/05/2008] e usou uma expressão interessante sobre a “geração 68”. Segundo ele, aquela geração “injetava utopia na veia”

CENA 15 – FREIRAS CANTORAS

E por falar em música, me lembro de umas freiras que gravaram um LP de músicas religiosas, que indicam bem a temática do período. Não lembro que freiras eram (isso é coisa pro Jarbas ou pro Cordão), mas lembro da letra inteira de uma das músicas, que convocavam para uma atuação cristã:

“Para mim, o vento que assobia
É noturna melodia.
Mas o pobre meu irmão ouve o vento angustiado,
Pois o vento, esse malvado, lhe derruba o barracão.

Para mim, a chuva no telhado
é cantiga de ninar.
Mas pro pobre meu irmão,
Para ele a chuva fria vai entrando em seu barraco
e faz lama pelo chão.

Como posso ter sono sossegado,
se no dia que passou os meus braços eu cruzei?
Como posso ser feliz,
se ao pobre meu irmão, eu fechei o coração
meu amor eu recusei?”

Podia ser meloso, mas embalava a “opção pelos pobres”.

Uma resposta to “68 – CENAS”

  1. Hugo Bruno Says:

    As autoras desta canção são as irmãs missionárias de jesus crucificado, se não me engano uma congregação fundada no Brasil, em São Paulo.
    No meu tempo de formação cantávamos mt essa canção.

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