Quadrante III – O jogo

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Bem na esquina do terceiro quarteirão havia um campinho de terra batida. Duas traves de madeira e uma bola velha bastavam para o futebol da molecada.

Tinha uma pelada quase toda tarde. O uso era mais intenso aos sábados e nas manhãs de domingo. Memoráveis partidas aconteceram no pequeno espaço ainda não ocupado pelas construções da Rio Claro que crescia. A bola rolou até 1968. Em 1969, o pequeno campo de futebol foi transformado em um jardim público.

Tenho procurado o significado simbólico desse lado do quadrante. O que dele foi decisivo em minha formação e na minha vida?  Embora gostasse de jogar, o futebol nunca chegou a ser imprescindível, antes ou depois de 1968. “O ano que não terminou também não modificou significativamente a minha relação com o jogo de bola. No quadrante através do qual me propus a representar, sob o prisma da liberdade, “o cenário dos acontecimentos mais importantes e a minha vivência do ano de 1968”, qual o significado do campinho de terra batida?

Lembrei-me, de repente, da introdução de um curso sobre jogos em educação que formatei para o SENAC de São Paulo. Lá dizia:

Existem duas características, no jogo, que podem justificar o seu uso e a sua escolha face a outras alternativas metodológicas. O jogo é um instrumento privilegiado de construção do conhecimento e da cultura.  Huizinga afirma que “o espírito de competição lúdica, enquanto impulso social, é mais antigo que a cultura, e a própria vida está toda penetrada por ele como um verdadeiro fermento” (Homo Ludens, p.193).   A vivência é similar ao jogo na fuga do tempo e espaços reais, na liberdade de ação e no seu caráter lúdico. Huizinga atribui, ainda, ao jogo, a origem do ritual, da poesia, da música, da dança, do saber e da filosofia. A cultura em seu nascimento é um jogo e nunca separa-se por completo dele. “A cultura surge no jogo, e enquanto jogo, para nunca mais perder esse caráter” (ainda p.193). Assim, seja na assimilação da cultura, seja em sua construção, o jogo está presente e jogar é preciso.

Pronto. Ao mesmo tempo, tinha feito uma ligação do campinho de futebol (jogo) com 1968, a cultura e a liberdade. A liberdade é a essência do próprio jogo. Uma vez postas as regras, o jogador dá livre curso as suas possibilidades e capacidades de ação. No jogo, ele experimenta e desenvolve livremente suas potencialidades para agir, competir, colaborar, persistir e ser. A cultura surge do jogo. O ano de 1968 é emblemático das intensas mudanças culturais ocorridas na década de 60.

Até perto de 1968, minhas referências culturais estavam profundamente marcadas pela minha origem e meio social, apenas arranhadas pela escola e desarranjadas por uma isolada, famélica e anárquica busca pela literatura. A origem rural, explicava o gosto pela música caipira. No rádio, ouvia a antiga música popular brasileira (velha guarda) e os sucessos do momento (sambas canções, boleros). O ouvido não fora educado para distinguir gêneros ou diferenças qualitativas.

Quando criança, o único livro que tinha em minha casa era de teatro. Tratava-se da comédia Deus lhe Pague”, que foi encenada por Procópio Ferreira. Era uma recordação do tempo de juventude de meu pai. Ele tinha participado de um grupo de teatro amador em Cascalho, bairro rural de Cordeirópolis (SP). Como iniciativa pessoal, lia edições atrasadas de jornais que utilizava como papel de embrulho na feira, onde trabalhava.

Tive pouca oportunidade de ver e praticar quando criança e, quando jovem, tive muita dificuldade em aprender a dançar. A escultura e a pintura não faziam parte do meu universo cultural. Pouco ou nada se falava de política em minha casa ou no meu bairro. O cinema constituía uma janela para o mundo, que eu absorvia sem crítica e sem oportunidade de discutir. As normas morais e a orientação ética tinham uma base quase exclusivamente religiosa.

Ao recordar, percebo que descrevo um universo cultural extremamente pobre. A pobreza das referências culturais dominantes não era compensada por uma rica cultura popular. As manifestações culturais populares as quais eu raramente tinha acesso aconteciam no campo e/ou tinham origem rural.

Compreendo, então, que, quando criança e em parte da minha juventude, vivi em uma espécie de hiato cultural. Meus pais tinham perdido o saber e as tradições do campo e ainda não tinham se integrado totalmente ao universo cultural urbano. É importante perceber que, para mim, a escola não conseguiu construir uma ponte entre os dois mundos.

Essa ponte começou a ser construída pela expansão dos meios de comunicação e pela efervescência cultural da metade final dos anos 60. De repente, a televisão chegou ao bairro e, logo depois, à minha casa. Ela era um poderoso instrumento de difusão cultural. Permitia acompanhar a evolução dos movimentos artísticos e, especialmente, dos musicais. Os festivais de música popular impulsionavam a comparação e a discussão, inclusive política, que ecoava, circulava e se reproduzia no grupo de jovens do qual participava.

Estimulados pelo ambiente da época, começamos a experimentar a produzir música, teatro e dança; escrever jornais internos; fazer poesia; promover discussões culturais e políticas. A experiência do fazer estimulava a busca do saber. A busca criou a oportunidade de recuperar e organizar as informações dispersas acumuladas através da literatura. Entre 1966 e 1968 vivi um período de intensa aprendizagem cultural e política.

Não posso me alongar. É necessário ser rápido. Preciso resumir. Nos anos que antecederam ao de 1968 comecei a habitar a cidade. Em 1968, comecei a me tornar cidadão do mundo. Quais seriam as conseqüências do fechamento cultural e político que ocorreu no final de 1968 (AI 5) sobre essa construção tão recente. Sobreviveria?

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2 Respostas to “Quadrante III – O jogo”

  1. Similmar Says:

    Quanta história. Quanta saudade. Quanta saudade de nossa história.
    Cheguei em 68, em Rio Claro. E você foi não só uma das primeiras pessoas que conheci, como uma das que mais sacudiram minhas concepções pequeno burguesas.
    68 foi um divisor de águas: ruim para o país, libertador para jovens como eu. De uma forma ou de outra fez toda a diferença.
    Abraços
    Similmar

  2. José Antonio Küller Says:

    Similmar

    Que bom te encontrar por aqui! Também tenho sentido muita saudade daquele tempo. Reviver a história tem-me feito gostar e valorizar mais as vivências de 1968 e dos anos seguintes.

    Acho que seu texto insinua mais do que um comentário. Que tal desenvolvê-lo e postá-lo como uma outra Memórias e Outras Histórias? Estamos precisando de mais autores, especialmente do sexo feminino.

    Um grande abraço

    Küller

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