Lição do chofer de praça

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Na Maria Antônia ocupada a gente tinha mil reuniões da coordenação geral do movimento estudantil (CG do ME), uma ou outra assembléia e atividades culturais alternativas. Mas havia sempre um longo tempo morto. Parte desse tempo podia ser preenchida por um lanche ou uns goles de cerveja no Cientista (boteco, na época, mais in que o Bar do Zé). Outra parte era preenchida por namoros, conversa mole ou papos cabeça para quem deles gostasse. E ainda sobrava tempo naquela ocupação de tempo integral. Por isso, vez ou outra, a gente tentava achar algum compromisso para preencher os espaços mortos que ainda restavam.

Numa dessas tentativas, uma colega me convidou para visitar a tia que morava num dos edifícios mais badalados da Avenida Higienópolis, uma construção ao estilo quarto centenário na altura do número 400. Aceitei o convite. E me lembro até hoje do imenso apartamento, coisa de setecentos metros quadrados e do hóspede ilustre que lá encontramos, Jorge Amado. Lembro-me também de uma decepção. O grande escritor só falou de coisas banais. Eu esperava muito mais, algum papo cabeça sobre literatura ou política, ou alguma história de velhas lutas do Partidão, Mas qual o que, Jorge Amado emendou com minha amiga uma conversa sobre família, como vai fulano e beltrano, saúde da avó (dela) etc.

Porém, o episódio mais marcante dessa lembrança aconteceu no caminho para o apartamento. Minha coleguinha, alegando cansaço, quis ir de taxi. Protestei. Estávamos a quinhentos metros do apartamento da tia. Mas o charme de uma mulher pode mais que a razão. Embarcamos num taxi. A corrida resumiu-se à bandeirada, coisa que hoje ficaria ali por volta do R$4,80. Dei ao taxista uma única nota pequena. Havia um troquinho insignificante. Constrangido com aquela corrida tão curta, disse ao chofer que não precisava me dar o troco. Mas ele me disse algo que até hoje continua a martelar em meus ouvidos;

– Faço questão de dar o troco. Gorjeta é preconceito pequeno-burguês.

Ficou um dúvida. Até hoje não sei se o chofer de praça era um revolucionário ou um espia que circulava no pedaço para vigiar o movimento estudantil.

Jarbas

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