Quadrante II – A igreja

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Até 1968, fui católico praticante por costume, insistência materna ou medo do inferno. Não me recordo de nenhuma fé firme, nenhum especial fervor religioso ou êxtase espiritual. Para a igreja, sempre fui conduzido por alguém, caminhei meio distraído ou fui atraído por um interesse circunstancial.  

Ao longo da vida, freqüentei três igrejas. Como toda primeira vez, a do bairro de Cascalho, Cordeirópolis (SP), hoje Paróquia de Nossa Senhora de Assunção, foi marcante. Nasci naquele bairro rural. De lá são minhas memórias mais antigas. Tinha sempre missa aos domingos. A nave da igreja, feita imensa nos meus olhos pequenos, ficava densa de música. Só muito tempo depois, ouvi de novo aqueles sons e percebi que eles sempre me encantaram. Eu os amava, então como agora. Hoje, ouvir a  Lacrimosa é um resumo de tudo.

A missa cantada foi o primeiro gênero de música que ouvi. Onde morava não tinha rádio ou luz elétrica. Os fios de distribuição de energia passavam em frente da porteira do sítio, mas não entravam. “Coisas do demônio”: dizia meu avô.  Até morrer, cavaleiro andante em defesa de um mundo em destruição, ele não permitiu que esses e outros arautos da mudança ultrapassassem os limites de suas terras ou entrassem em sua casa.

Em um instantâneo de memória, vejo-me sentado na ponta de um banco nos fundos da igreja de Cascalho.  Ouço a música vinda do alto. Parece que cantada por anjos. Enlevado, olho distraído pelo corredor central. De súbito, o padre abandona o altar. Em um movimento arrebatado, ele é acompanhado por coroinhas paramentados para festas. Em passos de dança, eles movimentam ritualmente os seus turíbulos brilhantes e prateados. Aos berros, caminham em minha direção. Sinto medo. Metros à minha frente, a figura imensa do padre se detém diante de um homem muito agitado. Em meio a uma espessa nuvem de incenso, começa mais um exorcismo.

Cenas quase oníricas de exorcismo são as lembranças mais marcantes daquela época. A coreografia dos coroinhas; o espancamento com o cíngulo; os gestos dos “possuídos pelo demônio”: violentos uma vez, arrogantes outra, desesperados sempre, ora suplicantes, ora submissos, ora soluçantes aparecem difusos na fumaça contraposta à luz dos vitrais.  Gritos enraivecidos e histéricos misturam-se com fragmentos de música.  Hoje, quando me lembro, sinto o perfume inesquecível do incenso.

Até recentemente, acreditei que fui embora de Cascalho a bordo de um desejo de meu pai. Em Rio Claro, a Igreja de Santa Cruz parecia distante dos fins de cidade onde fomos morar, depois de construída a nossa casa. Lá fui aluno de catecismo. Lá fiz a primeira comunhão.

Lembro-me do dia da minha primeira comunhão. A igreja estava intensamente iluminada. Uma grande cruz dominava o altar. Nós todos estávamos vestidos de branco. Tínhamos uma vela acessa nas mãos. Uma alva e longa toalha de linho rendada cobria a guarda dos bancos. Sinto uma intensa expectativa pelo inusitado. Luto com o medo, quase pânico, de morder a hóstia, de pegá-la ou deixá-la cair. De repente, a música… Embevecido, esqueço-me das mãos. Desperto com o forte cheiro de queimado. A freira catequista me ajuda a apagar o fogo que sobe da toalha. Como memória sensorial, o cheiro de pano queimado é tão intenso quanto o gosto da hóstia que receberia logo depois.

Já não muito bem visto, continuei na igreja e nas aulas de catecismo. Delas dependia o ingresso para o cinema da paróquia, mantido pelos Congregados Marianos.  Todo domingo à tarde tinha uma sessão. Tempo mais tarde, todos os sábados, freqüentei as reuniões do movimento infanto-juvenil Cruzada Eucarística. Delas dependia não só o acesso ao cinema como também a possibilidade de jogar no time dos cruzados, nas manhãs de domingo. Fui, por muito tempo, o titular da lateral direita do segundo time. Tinha me acostumado com a posição.

Parecia tão adaptado que minha mãe teve idéias de me fazer padre. Escondido, escutei ela falar com minha avó, em italiano, sobre o assunto. Não sei o que me deu. Sei que fugi. Só no fim do dia, meu tio me encontrou vagando pelas imediações do campo de futebol em que jogava. Nunca mais se falou no assunto. Depois foi um tempo de afastamento: leituras, escola, ciência e apelos da vida desviaram a minha atenção dos assuntos religiosos. Mudei de time. Passei a freqüentar os cinemas comerciais da cidade:Tabajara, o Excelsior e o Variedades.

A igreja voltou a entrar na minha vida no fim da adolescência. Construía-se, a uma quadra de minha casa, a depois Paróquia de Santana. Não me lembro precisamente como mudei de uma igreja para outra. Ao lado das paredes em construção, lembro-me de uma conversa à luz das estrelas com o então padre Mauro Morelli. Se a memória não falha, ele falou do novo papel da igreja. Da necessária luta contra a pobreza. Da importância da participação dos jovens… Era primeira vez que um padre conversava comigo. Era a primeira vez que conversava com alguém que tinha vivido em países que eu apenas tinha visto nos filmes, visitado nos mapas ou estudado nas aulas de geografia.

Logo em seguida, Mauro Morelli se tornou pároco da igreja matriz de Rio Claro. Com ele, um grupo de cinco jovens padres assumiu as outras paróquias da cidade.  Tinha início uma experiência de renovação pastoral inspirada no Concílio Vaticano II, que tinha sido concluído em 1965. Participei do movimento, sem conhecê-lo muito bem.

O que me estimulou a entrar foi a proposta de engajamento na tarefa de transformação do mundo. Depois das experiências anteriores, as mudanças litúrgicas também surpreendiam agradavelmente. Aderi, de pronto, às propostas de participação do leigo e de redução das distâncias hierárquicas. Mesmo assim, o meu envolvimento foi sempre menor do que com o grupo de jovens (Joveunião) que se reunia na igreja, mas não fazia parte dela.

No fim de 1968 ou começo de 1969, não me lembro bem, tudo terminou. Assim como o AI 5 vinha para calar as vozes do quadrante oposto (Quadrante I – A escola), uma decisão episcopal acabou com a experiência de renovação. Todos os novos padres foram, inesperadamente, afastados de suas paróquias. Apenas Mauro Morelli permaneceu por mais algum tempo.

Participei de um movimento de rebelião contra a medida do bispo. Fiz parte de uma comissão que foi discutir a decisão no palácio episcopal, em Piracicaba. Como ato final, ajudei a organizar uma grande reunião do bispo com os paroquianos de Santana. Dela me recordo de uma cena. Depois de muito explicar e não convencer, o bispo disse: como é duro ter ouvidos e não ouvir! De pronto, um humilde paroquiano retrucou: como é duro ter boca e não poder falar! Não conseguimos muito mais do que isso. A renovação radical tinha terminado. Com ela, as facilidades para o funcionamento do grupo de jovens foram diminuindo. A Joveunião acabou.

Uma visão laica do mundo, que começou a ser construída na escola fundamental, foi se firmando. As leituras de filosofia, sociologia, psicologia, antropologia, história, política,…, solicitadas ou estimuladas pelo curso de Pedagogia complementaram a tarefa. A igreja tinha um papel cada vez menos relevante como explicação e mapa de navegação no mundo. A redução do papel político, o retorno a um culto mais convencional e o estreitamento dos limites de participação popular foram me afastando também da última ligação que ainda restava: a missa dominical. Aos poucos, abandonei a igreja católica e tornei-me agnóstico.

Em 1968, foram destruídas quase todas as pontes com minha vida anterior. Que pontes com minha vida futura seriam construídas a partir daí?

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2 Respostas to “Quadrante II – A igreja”

  1. antoniomorales Says:

    Ainda me animo e escrevo um post sobre meu rompimento com a Igreja e com a FÉ aos 12 anos.

    Por enquanto gostaria apenas de comentar que apesar de meu ateísmo casei-me na igreja por motivos familiares e meu casamento foi justamente na Igreja Matriz de Rio Claro e foi celebrado pelo padre Mauro Morelli, que concordou em me casar mesmo sem que eu cumprisse umas regrinhas para tal na época, como por exemplo a confissão. Como eu era batizado e crismado foi o suficiente.

    Aliás, você estava presente!

  2. Samuca Says:

    Olá, gostei muito de seus artigos, gostaria de te convidar para partipar de uma rede de troca de conteúdo, para mais detalhes me adiciona no msn co_herdeiro@hotmail.com ou me manda um email ok, ou ainda veja mais detalhes em http://www.ocasional.com.br/howto.aspx Abraços. Samuel

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