1968: A torre do Banespa x 2008: a torre do Santander

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1968

Foi em 1968 que iniciei, em São Paulo, minha participação junto a um movimento operário de Osasco, do qual Sérgio, meu colega de curso, era uma das lideranças. Era um grupo pequeno, formado por representantes de diferentes fábricas da cidade, e seus  participantes não ficavam implicando e nem mesmo nos questionando pelo fato de sermos professores e não operários: éramos, simplesmente, aceitos como trabalhadores.

 

Suas principais lideranças eram vinculadas ao Partido Comunista Brasileiro e o grupo buscava desenvolver ações não só nas fábricas, mas, também em favelas, clubes de futebol. Dava para sentir, em seus participantes, uma certa “birra” com o pessoal do movimento estudantil: “filhinhos de papai, que não agüentam um “pum” do Fleuri”, diziam.

 

Dois “quadros” que pertenciam ao grupo haviam sido presos durante ações de mobilização, em suas respectivas fábricas, e a principal discussão que ocorreu, naquela reunião de domingo à tarde, foi relativa a como denunciar  “a toda a sociedade, a prisão de nossos companheiros.”

 

Uma das ações propostas, e aceita, foi a de imprimir panfletos, relatando o acontecido, e “soltá-los” da torre do Banespa, no centro de São Paulo. Sérgio foi designado o responsável pelo planejamento e operação desta ação.

 

– “Topa?”

 

– “Sim, topo.”

 

            À época, usávamos umas bolsas feitas com plástico grosso e zíper: eram nelas que carregávamos nossas apostilas, livros e cadernos. Numa manhã da semana seguinte, eu aguardava pelo Sérgio, em frente aos Correios, com minha bolsa recheada, não pelas apostilas e cadernos de sempre, mas por dois pacotes de panfletos impressos, em papel vagabundo, em Guarulhos. Haviam sido trazidos pelo Sérgio, um dia antes, e passados para minha “guarda”, no banheiro da escola onde estudávamos. Sérgio me encontrou em frente aos Correios e trazia,  em sua pasta, duas garrafinhas com meio litro de álcool cada, o suficiente  para encharcarmos os pacotes de  panfletos e deixá-los no parapeito da torre: a evaporação do álcool e o vento se encarregariam do resto. “Deus queira, pensava eu”, ansioso.

 

Chegamos,  juntos, ao hall do Banespa e anunciamos nossa intenção de visitar a torre, para “ver São Paulo inteira, lá de cima”. Por causa do sotaque caipira, fui o porta voz:

 

          – “Somos do interior e estamos passeando aqui…Meu primo, que trabalha no Banespa, em Botucatu, foi quem nos orientou para este passeio. Ele disse que é lindo.”

 

– “Como se chama seu primo?”

 

– “Paulo, trabalha no Banespa lá de Botucatu.”  

 

Lá fomos nós. Utilizamos um silencioso elevador, até o vigésimo-sexto andar, onde aguardamos, no amplo hall, um outro, que nos levou até o trigésimo-segundo. Dali, “a pé”, subimos dois ou três lances de escada e alcançamos a torre.

 

O dia estava nublado e havia duas pessoas visitando a torre: “tomara que saiam logo”, pensava eu, nervoso.

 

A bolsa com os panfletos pesava…

 

Fomos, Sérgio e eu, para o lado que avistava a  Zona Sul e conversamos um pouco, na tentativa de nos acalmarmos mutuamente. De lá, com o rabo do olho,  vimos que os dois outros visitantes iniciaram a descida,  pelas escadas.

 

Imediatamente, iniciamos nosso trabalho: retirei um dos blocos de panfletos da bolsa e o encharcamos, rapidamente, com álcool, deixando-o no parapeito da parte sul da torre; o outro bloco ficou, também encharcado, na parte norte.

 

Guardamos as garrafinhas de álcool, uma delas com algum conteúdo, e iniciamos a descida, pelas escadas. O cheiro de álcool, na bolsa do Sérgio, era forte, o que nos levou a um banheiro, no trigésimo segundo andar, para jogar, em um vaso sanitário, o conteúdo restante. Demos descarga e Sérgio aproveitou para molhar o rosto e pentear seus cabelos crespos.

 

Tomamos o elevador para o vigésimo sexto andar e, no hall, ficamos aguardando por outro, que, finalmente, nos deixaria no térreo. Aqueles segundos, ou minutos, de espera, no hall do vigésimo-sexto andar, pareciam horas: o elevador nunca chegava e o tempo não passava. Minhas axilas estavam molhadas e pequenas gotas de suor corriam pelo peito, sob a camisa, fazendo uma coceirinha gostosa. Aí entendi porque Sérgio havia molhado o rosto e os cabelos: seu rosto e peito eram puro suor.

 

Chegou o elevador, que nos deixou no térreo e, logo depois, aguardávamos, no Anhagabaú,  a “tempestade” de panfletos que denunciaria,  a toda a sociedade progressista de São Paulo, a prisão de nossos companheiros. Por segurança, nós  nos separamos e fiquei em frente aos Correios, “vigiando” a zona norte da torre.

 

Nada!

 

Naquele momento, o sol aparecia, forte, sob as nuvens, e a neblina ia, aos poucos, sumindo… “Será que colocamos álcool demais? Por que está demorando tanto a evaporação? Será que falta vento? Deus do céu, ajude-nos”, pensava.

 

Foi aí que Deus resolveu ajudar e o “milagre” ocorreu: não uma “tempestade” de panfletos, mas uma “garoazinha” de papéis caindo no Anhangabaú. Algumas  pessoas pegavam, outras, distraídas,  ignoravam.

 

A ansiedade havia passado e eu me sentia confortável.

 

Resolvi, então, caminhar pelo Anhangabaú, apanhar, distraidamente, um panfleto e ler, demonstrando surpresa e indignação.

 

Puxei conversa com um senhor que havia me visto apanhando o panfleto:

 

– “Nossa!!! Está  “falando” que tem dois operários de Osasco presos, aqui no Dops”;  eu disse, ao mesmo tempo em que  lhe ofereci o panfleto.

 

Procurei acompanhá-lo durante a leitura. Leu rapidinho, só o acompanhei por uns dez passos, e com ares de desinteressado, me devolveu e não disse nada além de:

 

– “Não jogue na rua, para não emporcalhar ainda mais a cidade.” 

Desconcertado, apanhei o papel de suas mãos  e  guardei em minha pasta, agora vazia.

 

Encontrei-me com o Sérgio, perto do Mappin, em um ponto de ônibus, no qual tomamos o “929 – Largo da Concórdia – Cidade Universitária –”   e fomos, com a alma leve, assistir às aulas do  nosso curso de Especialização para Professores de Quinta e Sexta Série.

 

 

2008

 

No hall do Santander, há, agora, além do lustre de cristal que, segundo o panfleto colorido que apanhei na recepção, “se destaca, com 13 metros de altura, 2 metros de diâmetro, 900 lâmpadas, 10 mil peças, pesando cerca de 1,5 tonelada” ,  uma exposição permanente de obras de arte.

 

Correntes com elos de plástico amarelo formam um corredor para organizar a fila dos interessados na visita à torre. Entro na fila que tem, à minha frente, quatro ou cinco pretendentes, como eu, à visita. Antes de chegar a minha vez de ser atendido, percebo que, a todos, será pedido um documento de identidade, que uma ficha será elaborada e que a atendente, manipulando uma camerazinha minúscula, solicitará que se coloque o rosto em determinada posição para a fotografia. Para um rapazinho que estava pouco à minha frente, é solicitado que deixe sua mochila na chapelaria.

 

Retiro, de minha mochila, a carteira de motorista e  entrego-a à atendente, em resposta ao seu pedido de “um documento de identidade, por favor.” Depois, tive de fornecer o número de meu telefone residencial e obedecer ao “olhe para câmara, por favor, vamos fazer uma foto do senhor.” Obedeço, sorridente: gosto de sair sorrindo em fotos.

 

– “A mochila, senhor, por favor, queira deixá-la na chapelaria.”

 

– “Gostaria de levá-la comigo: tem meus documentos, meu celular e, também, dinheiro.” Na verdade, o que havia de importante na mochila era um exemplar do Sentimento do Mundo, da Coleção Grandes Escritores Brasileiros, da Folha de São Paulo, do mineiríssimo Drummond, comprado, há pouco, em uma  banca…

 

             – “Não pode, senhor. Questão de segurança. Tire dela o que o senhor quiser, e  pode deixá-la em nossa chapelaria; é superseguro.”

 

O que eu queria, de fato, era testar a possibilidade de visitar a torre com minha mochila e, como todo velho chato, continuo:

 

           – “Mas…”

 

– “Por favor, senhor, não insista, veja a fila que está se formando atrás do senhor.”

 

Deixo minha mochila e recebo uma senha para retirá-la na volta:  “E o que faço com meus panfletos?”, penso.

 

            Enfrento outra fila para aguardar a autorização para subirmos, o que só ocorreria quando o grupo que está na torre descer, segundo nos informa a moça de uniforme preto  e revólver na cintura.

 

            – “Está liberado, senhores…é só seguir a segurança, por favor.”

 

No elevador que nos levará até o vigésimo sexto andar, uns dez interessados na visita: duas venezuelanas, com sua guia, o rapazinho da mochila, um casal de rapazes falando inglês que, aproveitando o aperto do elevador lotado, se tocam e se olham de maneira apaixonada.

 

Como há quarenta anos atrás, no vigésimo sexto andar, temos que ir para o hall e aguardar outro elevador,  que nos levará  até o trigésimo segundo andar. Aproveito para folhear o panfleto que havia recebido no hall de entrada, colorido, com fotos e informações: a altura da torre é de 161 metros, é possível avistar de sua altura até quarenta quilômetros, foi inaugurada no dia…

 

Chegamos ao trigésimo segundo e me recordo do hall. Outra espera até que o grupo que está na torre desça. Aproveito para visitar o banheiro, onde, há quarenta anos, fizemos, Sérgio e eu,  “xixi” de álcool.

 

Todos assinam um “livro de presença”, onde descubro a nacionalidade das venezuelanas e a do simpático casal de jovens ingleses.

 

Uma outra segurança, morena bonita, também com seu uniforme negro e revólver na cintura, dá a ordem:

 

– “Podem subir, senhores…boa visita.”

 

Aguardo todo o grupo: quero ser o último a subir os três lances de escada.

 

A torre continua extremamente igual: suas pastilhas cinzas e o seu guarda corpo largo, tão adequado para acolher panfletos embebidos com álcool e sonhos…a cidade enorme, agora não muito estranha para mim, lá embaixo, e o barulho rouco de seus carros, de suas pessoas…

 

Deixo o grupo com o seu emaranhado de comentários: “olha ali..é o Copan?, veja o mercado municipal, it´s beautiful, mui lindo”…e desço para o triogésimo segundo. Ali, nova espera: não posso descer só para o hall do trigésimo segundo andar, tenho que aguardar o restante do grupo, me informa a linda segurança, com seu uniforme negro e seu revólver na cintura. Ela me oferece uma cadeira, que aceito e onde sento e releio o panfleto colorido.

 

               A bela segurança fala ao rádio, com sua colega da torre:

 

            – “Horário de visita encerrado, peça ao pessoal que desça, câmbio.”

 

A resposta vem rápida:

 

– “Pessoal descendo, câmbio.”

 

– “TKS”.

 

Fomos autorizados a descer até o trigésimo segundo andar. No hall, outra vez em fila de espera, até ouvirmos, com um bonito timbre, da segurança: “por favor, senhores, podem tomar o elevador. É só seguirem a segurança: muito obrigado pela visita.”

O mesmo ritual de fila, espera e rádios de comunicação, com seus “câmbios” e “TKSs”, se repete no vigésimo sexto.

 

             No térreo, a outra segurança e seu revólver, também bonita, mas não tanto quanto a do trigésimo segundo nos pede, com voz calma,  que lhe entreguemos os crachás.

 

             Vou até a chapelaria e retiro minha mochila vazia: sem panfletos, sem sonhos… só o Sentimento do Mundo, do Drummond.

 

Vou até o prédio dos Correios, agora, totalmente reformado, lindo, à espera de uma tempestade ou, mesmo, de uma garoazinha.

 

            Nada….

 

Na boca, um gosto amargo de derrota: minha geração fracassou.  

 

9 Respostas to “1968: A torre do Banespa x 2008: a torre do Santander”

  1. José Antonio Küller Says:

    Orlando

    Outro texto emocionante. Terminei com um travo na garganta.

    Küller

  2. antoniomorales Says:

    Depende…eu diria que uma parte de nossa geração fracassou,
    mesmo porque a maioria dela era perfeitamente integrada ao
    capitalismo emergente no Brasil e ouso dizer, a favor da Ditadura.

  3. Orlando Says:

    Tonhão,

    Obrigado pelas ilustrações! Muito bonitas.
    Orlando.

  4. antoniomorales Says:

    Orlando…na verdade fiz apenas alguns links em seu texto. As ilustrações provavelmente foram feitas pelo Küller, assim como outros links. A proposta de que o blog seja uma criação coletiva parece estar funcionando muito bem!

  5. Orlando Says:

    Amigos do Blog:
    Não poderia deixar de apontar este comentário ao texto que recebi de uma pessoa extremamente amiga e só declino em identificá-la para não levar um puxão de orelha.
    “1968 – A torre do…”. Não sei se acho justo, Orlando, dizer que nossa geração fracassou. Acho que houve alguns ganhos, embora também ache que o fracasso maior foi o de não termos conseguido transmitir nosso inconformismo, nossa inquietude e nossa propensão à mobilização diante das coisas que considerávamos injustas e absurdas aos jovens de hoje, que pouco ou nada reagem em relação ao que aí está. Contudo, acho que houve ganhos relativos à liberdade, mesmo que, muitas vezes, seja uma pseudo-liberdade. Enfim, nada é simples neste mundo e houve, pelo menos, um esforço para tentar mudá-lo. É o que penso.

  6. Zé Ruy Says:

    Amigos da geração Pós Guerra (refiro-me à Segunda Gde Guerra)

    Peço licença para discordar da afirmação de que a geração 68 fracassou. Como assim? Aqueles que, estiveram nas ruas e nos porões da ditadura brasileira, chegaram ao poder. Aliás, a AL tem hoje expressiva representação dessa geração em posições de mando. Na Europa, os movimentos continuam sua luta, hoje naturalmente dentro de um outro contexto geo-político e geo-econômico. Vivemos a era pós-industrial e pós-moderna, o que quer que isso possa significar frente à utopia dos 60`. Particularmente o que me entristece são dois aspectos: faltou a formação de novos líderes (quem para substituir Robertão Freire, Gabeira, Mário Covas, Arraes, Ulisses, Montoro? Tá bão, vão dizer que misturo impuresas do PDC à outros movimentos) e o interesse da juventude pela política. Os cursos de sociologia perderam a demanda. Os de economia idem. O negócio é ser administrador (os engenheiros já tomaram o lugar deles) Quem quer ser professor? O que se estuda nas faculdades? O que os estudantes lêem? Como podemos formar líderes desse jeito? O que fazem os petistas com visibilidade para ganhar liderança clara e honesta, até onde os limites nos permitem? Não, a geração 68 não fracassou. Os tempos é que mudaram rapidamente. A informação que poderia ser jogada de cima do Banespa está na Internet. O mimeógrafo não é mais necessário. Até o Raul sabe que não dá para driblar a Internet. (em 91 estive na terra do Comandante e para passar fax era uma fila dantesca. Só existiam aparelhos em lugares públicos e se alguém fosse pego com um em casa, dava cadeia) Sim, o mundo mudou. O muro caiu, as guerras continuam, mas há algo no ar com a nova geração que se forma: brigam no Tibet, na França, na Venezuela, em Cuba e até nos EUA. É difícil, nessa perspectiva globalizada, ter muita pressa. Para Alain Touraine “há uma mudança total de perspectivas: se considerava que o mundo moderno estava unificado enquanto a sociedade tradicional estava fragmentada; hoje, ao contrário, a modernização parece levar-nos do homogêneo ao heterogêneo no pensamento e no culto, na vida familiar e sexual, na alimentação e no vestuário.” No meio dessa confusão pós-moderna a geração 68 ganha uns poucos, é bem verdade, mas convictos e menos sonhadores substitutos. Sei que é clichê, mas a luta é a jornada. O destino, sabe-se, trás vitórias e derrotas, como as ondas. O sonho não acaba, apenas fica mais real…

  7. antoniomorales Says:

    Caro Zé Ruy.

    Essa é a boa polêmica. Seja bem vindo. Seus comentários abordam múltiplos aspectos e cada um deles podem se tornar um tópico de estudo e reflexão.

    Eu estou entre os que discordam que a nossa geração fracassou, pelo menos essa afirmação não pode ser feita de modo absoluto. Afinal, de quem estamos falando?

    Existe algo que possa ser chamado de Geração 68? Há uma diversidade muito grande de atitudes entre os jovens que viveram a década de 60 e particularmente no Brasil perante a Ditadura Militar.

    Como mencionei em curto comentário anterior muitos eram os plenamente “integrados” – para utilizar a expressão de Umberto Eco – ao projeto capitalista inspirado nos EUA para o Brasil e ao movimento cultural que veio na esteira da dominação política e econômica embalado pelo rock.

    O que fracassou foi o projeto alternativo socialista acalentado por uma parte de nós. Tanto que hoje vivemos numa sociedade de mercado e de consumo governada pela tal “mão invisível” e a Geração 68 que chegou ao poder administra – tenta – as glórias e mazelas do capitalismo tupiniquim.

    Você tem razão. Os tempos mudaram, apesar de o sonho persistir alimentado por movimentos diversos em várias partes desse mundo pós-industrial globalizado e marcado pela presença da Internet.

    E para usar mais um clichê: a luta continua.

  8. João Carlos Alexim Says:

    Por vezes confundimos nossa biografia com a história, concordo então que não houve fracasso, apenas não tínhamos o poder nas mãos, levamos nossa luta com as armas que nos eram próximas, mas muito distantes do eixo principal, uma luta injusta, como disse certa vez Pasolini, o cineasta, onde colocávamos nossa vida nas ruasa para lutar não contra o verdadeiro inimigo, que ali não estava, mas contra soldados por ele armados, que não eram nossos inimigos, fazíamos nossa luta num falso território. Então podíamos ser os quixotes, com nossas ilusões, não os fracassados.
    O mundo mudou? a tecnologia continua dividindo os benefícios, uma pequena parcela para todos, que se multiplica horizontalmente, mas a grande parte, a que reforça o poder de dominação, para os sempre poucos. Ou seja, a grande massa vai incorporando benefícios, mais circo, mais show, alguns ganhos na saúde e na educação, internet se ampliando, mas ao mesmo tempo os mecanosmos de dominação maizs expertos e eficazes, muita coisa mudando mas nada mudou. E não é nossa culpa, essa guerra foi perdida lá atrás, no Século XIX, quando o capitalismo ainda não se firmara e era possível sonhar com alternativas, pensar nas grandes criações teóricas dos nossos iluminados pensadores, mas sem o utilitarismo necessário para transformar o sonho em armas.
    Enquanto isso, não a luta, mas a memória continua. E acho bom que continue, até o dia em que a história nos traga uma (outra) surpresa…..

  9. José Antonio Küller Says:

    Tenho acompanhado a discussão gerada pelo texto do Orlando. O que a motiva é a frase final: “minha geração fracassou”. Em relação a isso gostaria de fazer alguns breves comentários, para mim ainda não conclusivos:

    1. Achei brilhante a construção do texto do Orlando. Dela, o que mais me encantou foi a sua idéia de retornar, em 2008, ao local da ação original e tentar simular uma repetição. Ao fazê-lo, no texto, ontem a Torre do BANESPA e hoje a Torre do Santander ganham quase um status de símbolos das duas épocas.

    2. Como símbolos, que mudanças ou permanências evocam? Para mim, em primeiro lugar, marcam a vitória do capitalismo e, nele, a crescente importância do capital financeiro e multinacional. Se parte da geração de 68 era nacionalista e sonhava com uma sociedade socialista, as torres, quando contrapostas, são símbolos eloqüentes de um fracasso.

    3. Talvez as torres pudessem ser símbolos relacionados com a luta contra a ditadura e os sonhos de construção de uma sociedade mais libertária. Se encarados assim, o fracasso parece não ser tão evidente. Enfim, a ditadura terminou. Restauramos a democracia. Os que antes eram perseguidos e calados pelo regime, hoje estão no poder ou disputam o poder político da nação.

    4. Mas, mesmo assim, da visita em 2008 sobra uma inquietação. O guarda na porta foi substituído pelas belas recepcionistas. O acesso à Torre sem acompanhamento foi substituído por um eficiente esquema de visita guiada. As denúncias que caiam do céu hoje circulam pela Internet. Mas, vivemos mesmo em uma sociedade mais livre? Será que os controles, antes explícitos e muitas vezes violentos, foram apenas disfarçados? Será que o que plantamos nesse tempo não foram apenas flores que ocultam as farpas da mesma cerca que ainda nos prende?

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