Defendendo tese

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Ao contrário do que acontece nos meios acadêmicos, essa tese é pra provocar antíteses, e não para contemporizar.

Para variar, deixa eu dar uma pequena radicalizada.

(Houve um tempo em que não tinha coragem de expor idéias, perante toda a certeza que encontrava na posição dos outros. E na década de 60 isso acontecia muito.

A sorte é que minha filha não herdou essa timidez e defendeu sua tese de mestrado sobre a formação de conceito em Vygotski, encarando o comodismo das teses sobre o tema e comprando uma briga enorme.Foi pela Unesp de Bauru.)

Feito o comercial, vamos à contundência:

A Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base formam o conjunto teórico-prático mais radical e revolucionário do período.

Esse negócio de dizer “do período”, vai por conta da minha antiga timidez. Acredito que não tem comparação, pela coerência e profundidade da proposta.

Quando comentei com o Luiz Carlos que ia defender esta tese, ele me emprestou o livro do Frei Betto, “Fidel e a Religião”. Seguindo o estilo do Comandante, li o livro em duas noites. Então me convenci mais ainda desta tese. O interesse que Fidel demonstra pela Teologia da Libertação é bastante sintomático.

Acho que a maior contribuição do Marx é o seu pensamento filosófico, fundado no materialismo dialético, superando nossa tradição de pensar limitada pela lógica formal de Aristóteles cristianizado pela Escolástica.

(Aliás, acho que ainda precisamos fazer uma discussão que ficou adiada no SENAC, sobre as mudanças que ocorreriam na educação se chegássemos à lógica dialética, pelo menos.)

Se estudarmos os textos da Teologia da Libertação, em especial os de Leonardo Boff, – vide abaixo – encontraremos poucos resquícios escolásticos. Ouso dizer que foi quem melhor se utilizou do método marxista de pensar a realidade. O mesmo vale para o Paulo Freire…

Bom, mas deixa essa parte pro Jarbas e pro Cordão. No meu tempo de estudante de filosofia e teologia, o padre Olinto sempre me chamava de superficial. E acho que tinha razão.

Talvez o meu forte sejam as CEBs. Participei das discussões e das primeiras experiências sobre a implantação das Comunidades Eclesiais de Base, que eram mais radicais do que o que se implantou depois. (Radicais no sentido de enraizamento).

Lembro que saí do seminário, que era uma ordem religiosa, para ajudar meu pai financeiramente, mas deveria voltar daí um tempo e dentro da proposta das CEBs. Fui conversar com o bispo de Santo André, Dom Marcos Barbosa, que já realizavam experiências nesse sentido.

A proposta era bem radical: o seminarista, ou o padre, tinha que ir morar numa comunidade em condições de igualdade em moradia, arrumar um emprego, começar a conviver com a população, apresentar-se como possível líder religioso e esperar ser aceito ou escolhido por ela.

Era para isso que eu teria voltado, se eu não tivesse perdido a fé.

Esse processo de imersão total não estava presente só nas CEBs. Outros movimentos influenciados pela Teologia da Libertação tinham o mesmo caráter. Lembro por exemplo a experiência dos Padres Operários, que foram presos em Osasco. (Precisamos lembrar do Pe.Soligo. Volto a falar sobre ele.)

O interessante é que vou dirigir uma unidade da Secretaria da Educação de Rio Preto, inserida num bairro da periferia que surgiu de um desfavelamento na cidade, e, como estou sozinho, mudei-me para o bairro e vou fazer a tal da imersão. Será que voltei a ter fé?

Como diriam os “Paralamas”: “Só não se sabe fé em quê…”

As Comunidades de Base foram tão importantes para a história recente que muitos grupos cresceram a partir delas, como o próprio PT, a pastoral da terra, o MST…
O próprio PCdoB se utilizou delas na década de 70.

Para não mentir sozinho, vou reproduzir um trecho da Introdução do livro “Teologia do Cativeiro e da Libertação” do Leonardo Boff. Além do mais ele faz uma boa análise do que ocorreu dos anos 60 para os 70. O livro é de 75.


“A década de60 viu a concepção e a gravidez da práxis e da idéia de libertação. Chegou à sua culminância nos Documentos de Medellin, em 1968. A partir desta data se fizeram sentir reações profundas por parte dos mantenedores da situação vigente.

A década de 70 está sendo marcada na América Latina, nascedouro da Teologia da Libertação, pelo predomínio da ideologia da Segurança nacional, com conseqüências que atingiram significativamente quadros da Igreja.

Não são poucos os que proclamam o aborto daquilo que foi concebido na década anterior. Um certo sentimento de desesperança invadiu muitos grupos comprometidos. A instituição da Igreja participou do desconcerto geral provocado pela ascensão dos regimes fortes.

Nem sempre se pode dizer que soube alimentar a esperança de quantos confiavam nela. Há os que constatam, ao nível dos altos escalões eclesiásticos, um sofrido vazio profético, tanto mais sofrido quanto mais urgente. Muitos profetas foram dizimados à vista de seus pastores.

Sem embargo, não se perdeu a perspectiva da libertação. Ganhou terreno nas bases; impôs-se já à reflexão da Igreja universal, refletindo-se no sínodo dos Bispos de 1974, como uma maneira diferente de se fazer teologia, de se considerar o conteúdo da revelação e da tradição e de se orientar a práxis pastoral. Agora ganhou seu verdadeiro contexto: o cativeiro.

Numa situação geral de catividade há que se pensar e trabalhar de forma libertadora. Há pouco lugar para a euforia dos anos 60, quando se podia sonhar com uma arrancada espetacular de libertação popular.

A teologia da libertação em regime de catividade tem outras tarefas do que em gozo das liberdades conquistadas. Há que semear, preparar o terreno, manter firme a esperança, consolar as vítimas, minorar as dores e lutar a favor dos direitos humanos violados.

(…)Junto com esta libertação em regime de cativeiro emerge um novo estilo de ser Igreja. Verifica-se uma verdadeira eclesiogênese, ainda não explicitada teologicamente mas uma real igreja que nasce do povo.”

Assim consegue-se entender a reação da direita da igreja, encabeçada pelo Cardeal Ratzinger…

Eduardo Sposito

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