Enquanto isso, no Rio de Janeiro…

by

Em 1968 iniciei minha vida universitária na Faculdade de Letras, da UFRJ, na época na Avenida Chile.

Após um curto período de ilusões e expectativas me vi num turbilhão de acontecimentos no mínimo assustadores, para quem queria dar seus primeiros passos na vida política do país.

Aulas eram suspensas, panfletos (termo proibido na época) apareciam em nosso material sem que soubéssemos como… e dessa forma fomos entrando no clima…

Lembro de uma vez que fomos orientados por lideranças da faculdade para ficar em grupo, em local estratégico, porque um dos nossos amigos estava sendo interrogado e poderia sair da sala do diretor preso. Nada impediu a prisão, e numa tremenda confusão outros alunos também foram pegos.

 As ausências eram sentidas a cada dia, algumas sem retorno…

 O ar era pesado, e bastava uma simples reunião de mais de dois estudantes na biblioteca, para imediatamente “seres estranhos”, sem nenhuma discrição, circularem entre nós. Aliás, eles estavam sempre entre nós…    

Imagine que certa vez fui parada por uma senhora na rua que, apavorada, me aconselhou a mudar de caminho, pois mais à frente havia muitos policiais e eu corria risco, já que estava com livros nas mãos!!

 É, amigo, não podemos deixar que esse triste período caia no esquecimento. Ainda há muito a ser esclarecido e essa discussão deve acontecer de geração a geração, para não corrermos mais riscos

 Regina Pimenta

Tags: , , , ,

4 Respostas to “Enquanto isso, no Rio de Janeiro…”

  1. José Antonio Küller Says:

    Regina

    Postei o texto que você me enviou por e.mail. Criei um título para ele que você poderá mudar, se quiser.

    Você começa a quebrar a hegemonia masculina dos autores de posts deste blog. Seja muito bem vinda. Espero que seu exemplo estimule mais meninas que viveram a época a escrever sobre suas memórias e/ou outras histórias.

    Também espero que seu post inaugure uma leva de outros (já prometidos) textos vindos do Rio de Janeiro. Para tanto, criei uma nova categoria: 1968 no Rio de Janeiro. Espero que ela se transforme em uma das categorias mais importantes do blog.

    Um grande abraço

    Küller

  2. Eduardo Sposito Says:

    Regina,
    prazer em conhecê-la e bem vinda. Quero aproveitar a vinda do Rio para um informe. Passei o acesso ao Arquivo 68 à minha filha, que inclusive já se manifestou aqui. Daí o marido dela ( meu genro! socorro, virei sogro!) me informou que o Zé Dirceu tem um blog semelhante chamado Especial 68 e a menina que o coordena nos convida a escrever para ele. É só entrar no
    http://www.zedirceu.com.br/
    Mas estou dizendo tudo isso porque no blog dele tem uma longa entrevista com o Vladimir Palmeira, com reflexões interessantes sobre o perído e descrevendo bastante o ocorrido no Rio de Janeiro.
    Em que pese que eu era da turma do Travassos, vale a pena a consulta e até uma possível contribuição nossa.
    Eduardo

  3. João Carlos Alexim Says:

    Como havia adiantado, Kuller, o cenário é muito parecido com o da Regina, e repetido, Letras ficava um pouco isolada na Av. Chile, mas o foco mesmo era na FNFi de tal forma que os militares logo que entraram fragmentaram nossa pequena universidade vertical, 14 cursos no prédio que foi então devolvido (ou presenteado?) ao Consulado Italiano. Lá se impediu uma vez que Lacerda entrasse para discursar, lá se ouvia no auditório, sempre lotado, “nós os marxistas”, e lá, como comentei antes, uma turma decidiu fazer a formatura na quadra da Mangueira. Muita confusão de critérios e valores, todo tipo de ideologia rolava pelos corredores, mas sempre à sombra de ameaças veladas ou explícitas de prisão. Lá me formei em 1962 e logo assumi uma assistência da prof. Marina São Paulo de Vasconcellos, que adiante viria a ser diretora e presa pelos militares. Da. Marina, toda uma dama, morreu em seguida, certamente de tristeza e decepção.

  4. milton vidal Says:

    estive presente em todos importantes movimentos estudantis da época, no calabouço inclusive no dia que Edson Luis é morto pela PM, estive no enterro no dia seguinte, e fui indo, várias passeadas no centro do Rio, em uma delas eu vi pela primeira vez um grupo de manifestante tombar um camburão do DOPS e o prepotente veiculo ficou de cabeça para baixo com as rodas ainda rodando, como se fosse a última resistencia do temido carro. Estava também na Urca no dia que milhares de estudantes foram cercados e ficaram deitados no antigo campo do Botafogo na General Severiano, o movimento estudantil ficou aniquilado depois do AI 5 e principalmente com a prissão de todos os lideres num congresso da UNE, foram presos Elinor Brito, Wladimir Palmeiras, Travassos, José Dirceu e outros, ali foi o inicio do fim do movimento pacífico estudantil, dali pra frente ´foi guerrilha urbana, luta armada.
    Mas para quem esteve lá foi muito emocionante ainda hoje qd se fala neste assunto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: