Uma bandeira no Chá

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O movimento andava meio recolhido. Parecia que a ditadura tinha conseguido calar a boca de todo mundo. Aí, no Calabouço, mataram um estudante. A notícia gerou indignação. Passeatas com milhares de pessoas pipocaram Brasil afora. Aqui em São Paulo, quase dez mil pessoas foram para as ruas. Houve muita coisa espontânea. A violência da ditadura gerou protestos de gente que até então andava acomodada. As manifestações não obedeciam a rigidez da correção política com a qual as lideranças de esquerda sonhavam.

Fui para as ruas depois de uma assembléia marcada por um tom emocional no IFT (Instituto de Formação Teológica de São Paulo) . Éramos uns cem estudantes de teologia. Quase todos fomos para a passeata. A cada passo, cantava-se o hino nacional. E a multidão gritava a pleno pulmões: “Mataram um estudante, podia ser seu filho”. O episódio me jogou na militância full time. A partir do protesto pela morte do Edson Luís, comecei a atuar na CG (coordenação geral do movimento estudantil), deixando as aulas de lado, passando horas sem fim na Maria Antônia ocupada e tentando aumentar a base do movimento em contatos com faculdades isoladas da Grande São Paulo. Mas todas essas explicações estão me tirando do foco. O que quero mesmo é narrar uma cena de 68 que não me sai da memória.

Quarenta anos depois, vejo com nitidez aquele moço sobre o topo de um dos pilares do Viaduto do Chá. Ele estava lá em cima (na minha memória o topo de metro e meio de uma das colunas do viaduto parece ter muitos metros). Destemido, sem se apoiar em nada, aquele moço agitava uma imensa bandeira do Brasil. Cantava, como todos nós, o hino nacional mais uma vez. E até hoje, acho que ele era a síntese do nosso protesto. Parecia não ter qualquer receio. Agia como um herói que levantava um estandarte com muita coragem e dava assim coragem a todos nós. E tudo isso é uma construção de memória que foi crescendo com o tempo. Não me lembro de mais nada daquela passeata, mas o moço corajoso agitando nossa bandeira lá no alto continua a ser uma imagem que ainda posso ver como se as coisas tivessem rolando agora (a cena, aliás, fica mais nítida, cada dia que passa). Quem era ele? Não era nenhum líder. Ninguém conhecido. Era apenas um cidadão indignado e corajoso. Para mim era e sempre será um herói.

Jarbas

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