Grupo de Jovens

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Não sei como aqueles jovens e crianças começaram a se reunir nos fundos da igreja em construção. Não fui curioso sobre o início. Acho que ainda cometo esse pecado. Viver, no concreto, a tirania do presente e viver o fluir do tempo apenas na imaginação.

Talvez o encontro tivesse sido preparado com muito cuidado ou acabado de acontecer. Mais que sei, pressinto que Alfredo Caetano da Rosa, o Padre Rosa, recém-chegado pároco da igreja, tivera um papel fundamental no que encontrei:  dois grupos, um de jovens outro de crianças, auto-geridos e, de forma autônoma, ocupando um mesmo espaço: uma sala de tijolos sem reboco, ao lado e no fundo de um grande barracão aberto, construído sei lá para que.

Quando cheguei, vinha de um tempo sózinho. A adolescência, como é comum, tinha me afastado um pouco da família. A escola tinha me distanciado dos amigos de infância. Dos vizinhos da mesma idade, eu era o único que continuava a estudar. Eles não entendiam as minhas conversas “absurdas” sobre células, vírus, mapas, políticas, combinações químicas, equações matemáticas, literaturas…

A leitura me proporcionava um escape para um mundo de sonho e imaginação. O cinema somou-se à leitura, como uma outra paixão. Muito tímido, não fui dado a namoradas. O tempo não era suficiente para trabalhar de dia na feira livre, estudar à noite, ler desesperadamente em todo lugar e tempo vago, ir ao cinema três ou quatro vezes por semana e cultivar amores ou camaradas.

Fui chegando devagar e, não sei muito bem como, de repente, fazia parte daquele grupo. Eu fora, talvez, atraído pelo time de futebol ou pela mesa de ping-pong. Fui lateral direito do time de futebol. Joguei tenis de mesa relativamente bem.

É certo que o início da convivência deu-se em noites de férias escolares, que foram se prolongando em fins de semana dos idos de 1965 ou 1966. Sei que em 1966 já tinha sido eleito e fazia parte da diretoria de um grupo de 160 jovens pobres, a maioria deles filhos de trabalhadores do campo ou de operários.

Pode ser uma história banal, como todas. Me vi, de repente, agente e objeto de um movimento que não dominava. Começamos a fazer coisas. Fechamos o barracão aberto. Erguemos paredes. Construímos, de madeira, o palco. Costuramos e criamos os mecanismos de fechamento e abertura das cortinas. Mesmo sem reboco, pintamos as paredes. Enfeitamos a nossa casa.  Com pouco, tínhamos uma grande área de convivência. De repente, quase tínhamos um teatro.

O espaço livre do barracão, agora fechado, era suficiente para as mesas de ping-pong. As poucas cadeiras disponíveis eram bastante para acomodar os grupinhos, as nossas conversas e os casais de namorados que iam aumentando. Para o teatro, faltavam as acomodações de público.

Mas, a igreja, ali do lado, tinha grandes bancos de madeira. Transportá-los da igreja para o barracão só demandava braços fortes. Esses eram muitos. Era necessário também um acordo entre o horário da missa e do espetáculo. Para a maioria de nós isso é fácil. A gente sempre peca depois de rezar ou peca antes de rezar.

Houve um primeiro espetáculo, num sábado à noite. Não me lembro muito dele. Era uma peça teatral que envolvia romanos e troianos. Só me lembro de me sentir ridículo vestido de soldado romano. Foi o começo de um tempo cheio de espetáculos teatrais, de shows, de campeonatos, de matinês dançantes, de festas, de brincadeiras e, especialmente, de uma vivência grupal e democrática inesquecível.

Lembro de uma gincana musical, disputadas entre bairros, que mobilizou Rio Claro durante quase um ano. Lembro de participar da organização de uma festa junina que foi a maior que já tinha acontecido na cidade. Lembro de apresentar a peça Liberdade, Liberdade, para os moradores do bairro,  em cima de uma mesa de ping-pong. Lembro do comentário mais elogioso sobre o nosso trabalho: não sei como vocês decoraram tudo isso!

Enquanto isso, o país vivia uma ditadura. Não estávamos alienados disso. É verdade que, concretamente, a mudança de regime político não tinha afetado muito as nossas vidas. Mas, como os gatos dos Saltimbancos, já tínhamos nascidos livres.

 Küller

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2 Respostas to “Grupo de Jovens”

  1. antoniomorales Says:

    PADRE ROSA

    O padre (ex-padre agora) Alfredo Caetano Rosa foi meu colega de turma na FAFI (Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Rio Claro) no período de 1967 a 1970 e aprontamos umas poucas e boas juntos.

    A melhor delas foi que lideramos um movimento para botar para fora da Faculdade uma professora de psicologia experimental. As reuniões da “revolta” foram na casa do Alfredo, que, lógico, pertencia à paróquia da qual ele era padre.

    Fomos, eu, ele e outra colega chamados na Diretoria para receber explicações das “otoridades” da época e instados a botar “panos quentes”, depois que um baixo assinado, organizado por nós e assinado por toda a classe chegou nas mãos deles. Demorou um pouco mas funcionou pois nos livramos dela.

    As última coisa que soube do Alfredo, foi que ele tinha se juntado a uma daquelas comunidades esotéricas do Brasil Central.

  2. Olga Maria Salati Marcondes de Moraes Says:

    Caro Zé Küller

    Visito o Arquivo68 regularmente e devo dizer-lhe que o cardápio já existente é estimulante: entonces, to sempre por lá.

    Lendo seu post “Joveunião”, o nome completo do Alfredo me cobra e aviva memórias. Otto e Alfredo eram padres em Rio Claro e nossos colegas universitários (Otto cursava Ciências Sociais e Alfredo da turma do Tonhão, acredito).

    Dizia-se, pela atuação de ambos, que foram “chamados” em 69 sob a guarda do bispo, com quem residiram em Piracicaba, a partir de então, rotulados subversivos. Com as atividades religiosas monitoradas, permaneceram estudando na FAFI Rio Claro, compondo nossa turma de estudantes viajantes.

    Meus últimos contatos com Alfredo se deram durante estágio que fizemos no Grupo Escolar-Ginásio “Prof. Ulysses de Oliveira Valente”, em Santa Bárbara D’Oeste, nos idos 71. Já formado, Alfredo era Coordenador Pedagógico e não só abriu – escancarou, na realidade – os portões daquela escola para que pudéssemos vivenciar o ambiente escolar e a problemática da educação pública.

    Nossa turma (estávamos ambos lá, lembra-se?), orientada pela Profª Cecília Micotti, buscava informações sobre o aprendizado dos alunos em início de alfabetização. Muita leitura e dedicação e o trabalho terminou num texto denominado “Provas para Verificação do desenvolvimento das Operações Concretas e sua fundamentação, segundo Piaget”, que Alfredo utilizaria nas reflexões com os professores e que garantiu nossa aprovação na disciplina.

    O trabalho exigiu fôlego, discussões que nos levaram “quase” às vias de fato, mas, acredito, pesaria sobremaneira em nosso preparo para a trajetória profissional.Ganhamos cópia do texto. Os empréstimos eliminaram a minha (gostaria de revê-lo).

    Ficou do trabalho a sensação do desafio vencido a o sentido do bilhete anexado ao documento de cumprimento de estágio (acredito que datilografados por ele mesmo): “Olgazinha, vocês trabalharam como profissionais, gente graúda! Parabéns!”

    Este foi o Alfredo que conheci.

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