68 – Cenas

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passeatas.jpgCENA 1 – O PASTOR DE PASSEATAJá encarnei o personagem “padre de passeata” vilipendiado pelo Nelson Rodrigues. Embora, já na época, eu achasse que passeata de padre era procissão. Como seminarista, participei de ambas. Mesmo achando a passeata mais perigosa.

 

Essa do pastor também foi interessante.

Devia ser em 66, numa passeata organizada pela UEE. A tática utilizada para despistar a repressão (pelo menos segundo dizia a liderança) era iniciar vários focos e depois juntar numa concentração no centro da cidade.

Participei da mini passeata que subiu a rua Catumbi(se não me engano) no Brás(ou na Móoca) que devia ser rápida, possibilitando a gente se encontrar no centro no tempo determinado.

O ponto de partida no centro era o da Galeria Prestes Maia, partindo depois pela São João, Ipiranga (não sei se o Caetano tava na esquina), atirando umas pedras no Estadão e terminando por queimar uma bandeira americana na Maria Antonia.

Chegando na Galeria, lá estava um desses pastores evangélicos de rua com a Bíblia na mão recrutando fiéis. Quando ele viu aquela moçada chegando em grande número e parando para ouvir seu sermão, ficou entusiasmado e melhorou a pregação.

Sua alegria só não foi maior que o susto que ele levou ao primeiro grito de “Abaixo a ditadura” – “Viva a UNE”- e as faixas e bandeiras sendo levantadas e a passeata saindo pelo Vale do Anhangabaú.

Às vezes fico pensando se ele não era o Edir Macedo em começo de carreira e a gente perdeu uma boa oportunidade de… deixa pra lá.

CENA 2- QUE DITADURA É ESSA?

Estou eu de novo numa passeata, pelos lados da São Francisco. Deve ter sido uma das primeiras e eu me sentia meio deslocado. Nunca fui de manifestações de massa e não me sinto à vontade para gritar e gesticular.

(Ainda ontem fui ver Corinthians e Rio Preto no estádio e fiquei curtindo 15 mil pessoas cantarem hinos e gritos (não mais) de guerra e não consegui nem gritar gol.) Voltemos ao eu deslocado na passeata.

O consolo é que ao meu lado tinha um cara mais deslocado que eu. No maior entusiasmo de neófito gritou:

“Abaixo a ditadura do proletariado!”

E foi imediatamente repreendido, pelo colega ao lado que devia ser seu iniciador: -“Não é isso seu burro.”

Ali já comecei a pensar que talvez o caminho não fosse esse.

CENA 3- SÍNDROME DO BOM SAMARITANO

A partir do Congresso da UEE em 65 em São Bernardo(em outro lugar eu disse Santo André, mas acho que me enganei) quando foi presa toda a diretoria e os presidentes dos Centros Acadêmicos participantes (inclusive o nosso) a participação dos seminaristas aumentou, e passamos a freqüentar as assembléias e organização de mobilizações.

Aí sobrou pra mim.
Não sei que iluminado sugeriu que para o próximo congresso da UEE deveríamos organizar um leilão de arte (tava na moda!) para arrecadar fundos.

Eu fiquei encarregado de conseguir patrocínios para a elaboração do cartaz e doação de obras nas galerias da rua Augusta. O cartaz seria impresso pela Michelangelo que estava no movimento, como se dizia na época.

Foi aí que descobri que não tinha mínimo jeito pra vender. Tanto que no período mais brabo do meu desemprego, logo a seguir nem pensei em me arriscar a ser vendedor de Barsa, que era o mais fácil.

O máximo que eu consegui foi fazer o fotolito para a impressão do cartaz, desenhado por um colega de seminário (o Valmar) que pra despistar a repressão desenhou uma cena do Bom Samaritano.

O que eu não entendo até hoje é que não consegui me livrar do fotolito. Levei pra casa, levei pro casamento, mudei 15 vezes de casa desde 71 e esse fotolito me acompanhou o tempo todo.

Só consegui me livrar dele no ano passado, porque o coloquei na janela da casa em que estava morando pra tapar o buraco de um vidro quebrado e a chuva apodreceu a madeira onde estava o fotolito. Criei coragem e joguei no lixo: 42 anos depois!
Ah! O leilão de arte não saiu.

CENA 4 – O GANCHO

E tinha os famosos comícios de porta de fábrica. Não me lembro muito bem deles, até porque foram poucos. E eu ficava na panfletagem, na porta e nos arredores.

Com o tempo, a repressão aumentando, começou ficar arriscada também a panfletagem.
Então surgiu a técnica do gancho: fazíamos um gancho com arame grosso; numa das pontas fixávamos os panfletos e a outra seria afixada em locais de grande concentração pública, como pontos de ônibus.

O que mais fazíamos era trem de subúrbio, especialmente os do ABC, que era onde – para nós – ficava o proletariado. Entravamos em uma estação; quando o trem estava parando na próxima, iniciava-se um pequeno discurso com o “abaixo a ditadura” no final; aí pendurávamos o gancho na alça e saíamos no meio da multidão. Como faziam os vendedores de chicletes e balas.

Mesmo que não fosse eficaz, era bastante poético.

CENA 5 – A PRIMEIRA CALCINHA A GENTE NÃO ESQUECE!

Deve ter sido ainda em 1965. No teatro Paramount, um show para arrecadar fundos para as famílias dos prisioneiros políticos. Ainda podia.

O pessoal dizia que foi organizado pelo partidão. Vários atores, músicos e cantores se apresentaram. Lembro do Valmor Chagas contracenando um trecho de peça com a (não tenho certeza) Cacilda Becker, lembro do Caetano e o Gil ainda não famosos, do Vandré… e não consigo lembrar mais ninguém. E tinha muita gente.

Mas me não esqueço, nos meus vinte anos celibatários, da menina que foi tocar violão, com a saia que já era quase mini, e ao cruzar as pernas deixou aparecer a calcinha.
Vai entender a memória da gente! Com tanta gente importante naquele dia, e vou me lembrar da…

Ah! Era branca.

CENA 6 – MON BIJOU (clique aqui para ver a página 10)

Jarbas, essa é pra fazer contraponto com a galeria Metrópole.
O meu ponto de cinema (vai ser enjoado!) favorito era o Cine Bijou, ali na praça Roosevelt. Será que ainda existe?

Era uma sala aconchegante, com poucos lugares: na minha imaginação tinha no máximo 60 lugares. Ali passavam os chamados filmes de arte e os brasileiros não-comerciais. Lembro de ter visto vários Bergman, Fellini, Antonioni, De Sicca, os Franceses, Barravento do Glauber; O Caso dos Irmãos Naves; O Desafio, do Sarraceni, São Paulo S.A. e muitos outros.

Cabulei muita aula de teologia por causa dele.

Eduardo Sposito

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2 Respostas to “68 – Cenas”

  1. Jarbas Says:

    Edu,

    Eu tinha razão. Suas crônicas são uma delícia. E, ao contrário do que você diz, sua memória não perde detalhes, personagens datas, lugares. É pura história viva. Continua, cara. E vê se convoca algum camiliano do nosso tempo. O Valmar, o Abel,o Virgílio e muitos mais. Há lembranças de montão para este blog. Do meu lado agostiniano estou tentando achar o Ivanir. E lá de Santa Efigênia, verei se posso contar com o Adilson e o Ivênio.
    Seria de bom pacas poder contar com algum texto do Olinto Pegoraro. Tem jeito? Se você conseguir, prometo que vou atrás de um depoimento do João Edênio. Abraço grande, Jarbas.

  2. Orlando Says:

    Olá Edu,
    Para te consolar:
    Não foi bem um “abaixo a ditadura do proletariado” que ouvimos em uma reunião de lideranças dos Centros Acadêmicos, por volta de 70 ou 71. Foi pior, penso. Em alto e bom tom o nosso amigo pediu “questão de ordem” e professorou:
    -“Colegas, como disse Marx “A história é cíclica”…
    E o nosso cíclico virou assessor de Ministro: tudo a ver.
    Orlando.

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