1964…e a vida continua.

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Da Reunião Pedagógica, ocorrida naquele mês de abril, uma sombria conclusão: a maioria esmagadora dos professores  – participavam das Reuniões Pedagógicas mensais todos os professores das escolas rurais do município de Registro – era absoluta e inquestionavelmente a favor da revolução e ao me posicionar contra, em minha ingenuidade tola,  perdi uma ótima oportunidade de ficar com a boca fechada.

Para mim o que salvou daquela reunião – que aumentou, e muito, minha tristeza e desesperança – foi o encontro e o início de amizade com dois professores mais experientes; eram dois educados rapazes da região de Amparo: um mais novo, o Luís, que ao saber de minha paixão por jogar futebol me convidou – aceitei na hora – para treinar com o time de Registro;  o outro, mais velho, o Fausto,  era filho de um diretor de grupo que lhe encaminhava mensalmente – retirados da biblioteca municipal de sua cidade – bons livros, os quais, gentilmente me foram oferecidos, com a promessa de, a cada reunião, ou encontro, devolvê-los: também aceitei na hora. Obtive, também naquela  reunião, a autorização formal para “instalar” o curso de alfabetização de adultos.

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Havia na região muitos nordestinos que vinham à busca de trabalho nas lavouras de banana: carpiam, colhiam as frutas  e se responsabilizavam pela árdua tarefa de carregá-las até os barcos ou caminhões para serem vendidas em São Paulo.Um deles, o Reinaldo, se tornou um grande amigo: alto, forte, negro, com os lábios grossos e os dentes, infinitamente brancos, sempre à mostra em seu sorriso permanente. Em uma tarde foi até a escola e pediu para que eu lesse, para ele,  a carta que o mestre da Lancha Sete havia lhe deixado na manhã daquele dia; carta de Rosília, sua namorada desde os tempos em que morava no interior de Alagoas.

Li a carinhosa carta de sua amada e vem o pedido:

– “Me ajuda a responder?”

– “Claro…a hora que você quiser.”

– “Então amanhã…trago papel e envelope.”

Na tarde seguinte, após o jantar, sob a luz de uma lamparina fomos à resposta que, segundo Reinaldo, deveria começar assim: “Espero que estas mal traçadas linhas vá te encontrar gozando de perfeita saúde junto aos seus…”; pediu para,  entre as muitas lembranças para fulano e beltrano, escrever que a veria em breve nas festas juninas,  que estava guardando dinheiro e que queria muito casar com ela – sua doce Rosília.

– “Não vai mandar um beijo no fim da carta?”

– “Pode? E se o pai dela ficar sabendo? O velho é danado de bravo.”

– “Ele sabe ler?”

– “Não. Ele não sabe, lá só a Rosília sabe”

– “Então pode.”

Termino a carta com um beijo, e ele : – “Termina assim professor: mais de cem doces beijos, meu amor.”

A fama correu a região: mais cartas foram lidas e respondidas; às vezes me sentia um pouco envergonhado por ler e escrever segredos – muitos tão íntimos – dos amigos nordestinos.

Daí ao convite: não querem aprender a ler?

Todos quiseram

.…………………………………………………………………………………………………………. Em Ribeirão Preto eu  havia participado, com o pessoal da JOC – no Círculo Operário – de uma experiência bem sucedida de alfabetização de adultos utilizando o método Paulo Freire, o que me levou a pensar  que poderia repetir, com os amigos nordestinos, a experiência realizada com os operários da Matarazo.Por isso estranhei um pouco quando, junto com os livros oficiais de autorização para a abertura do curso de alfabetização de adultos, o Inspetor de Ensino ofereceu quinze cartilhas “Caminho Suave”. Pelo clima da reunião achei por bem aceitá-las, agradecer e não discutir.

Na escola combinamos, com os treze alunos, que o curso seria das sete às nove da noite e com isso acabou-se a Hora do Brasil e os chiados de meu radinho de pilha…Ricardo, um dos alunos, pernambucano baixo e forte como um touro,  conseguiu com o Senhor Shindio, sitiante com o qual trabalhava, uma lamparina a gás que clareava fortemente a sala de aula e deixava, na saída dos alunos, minha pequena lamparina a querosene envergonhada com sua tão pouca luminosidade; nos reuníamos de segunda a sexta e eu misturava às “palavras geradoras”  – “chiboca”, “banana”, “covo” –  outras com a “pata nada” da Caminho Suave; a rapidez com que o rapazes aprendiam era impressionante.

Era muito divertido, o clima ameno e cooperativo: ríamos muito e quase sempre pedíamos para o Ariovaldo, ao fim da aula, cantar seus embolados engraçados e inteligentíssimos: cantávamos cada qual uma palavra e lá vinham , rapidamente, os versos de Ariovaldo rimando:  “banana” com sacana, “revolução” com bicho papão…e assim infinitamente; uma noite resolvi desafiá-lo com “psicologia”: rapidíssimo, vem nostalgia; vencia a todos, o Ariovaldo.  

No início de junho, ao final de uma aula vem a notícia, trazida pelo “líder”  Reinaldo: as aulas teriam que acabar naquela sexta-feira  porque iriam para o norte participar das festas juninas…

– “Mas as férias são em julho, e ainda estamos em junho”,  argumentei.

– “Bem professor…é que as festas juninas são agora e temos que ir…”   

Foram; em agosto, como haviam prometido, retornaram. ……………………………………………………………………………

E assim, em 1964, a vida continuou naqueles ermos da  Lagoa Nova!

Tudo muito quieto!

Do burburinho de Ribeirão Preto, das constantes e longas conversas com pessoas com as quais comungava idéias, ideais, lutas e utopias ao silêncio – tão valorizado pelos cistercienses – tão mudo como as águas quase paradas do Ribeira de Iguape.  

3 Respostas to “1964…e a vida continua.”

  1. antoniomorales Says:

    Orlando…um pequeno trecho de suas memórias me lembrou de quando fui assumir minha tarefa de professor primário numa escola da periferia de São Paulo. Mas isso foi no início da década de 70 em pleno Governo Médici quando a repressão estava brava!

    Me perdoem os amigos por extrapolar a década, mas como a Ditadura “transbordou”, acho que posso me conceder essa “licença” para dizer que o mesmo sentimento que o colega teve se abateu sobre mim, pois percebi na primeira reunião de professores que a direção e a maior parte dos colegas apoiavam o Regime Militar.

    Além do sentimento de desesperança se abateu sobre mim um temor desmedido pela minha segurança ameaçada agora pelos colegas que poderiam me “entregar” para a repressão ao menor deslize ou mesmo por vinganças bobas ou simples interesses pessoais como era comum acontecer naqueles tempos.

    Um verdadeiro pesadelo!

  2. Orlando Says:

    Olá Tonhão,
    Meu paciente “professor” para assuntos de Blog.
    Seguinte: no início, primeiro ano da Revolução, a coisa também era preta do ponto de vista repressão…depois deu uma pequena “amainada” para, se nã me engano, voltar com toda força em 69…assim o risco de “deduragem” por motivos políticos ou pessoais assombravam a todos os que tinham o mínimo de “rabo preso”
    …Outra coisa interessante: Em Ribeirão Preto quase todos os contatos que mantinha eram com pessoas progressistas o que me levava, erroneamente, a pensar que a sociedade de nossos sonhos viria até por “osmose”…Em minha mudança para Registro deu-se o contrário: as pessoas minimamente informadas – professores, por exemplo – eram favoráveis à ditadura e na Lagoa Nova, entre sitiantes e trabalhadores, indiferença total…
    A desesperança era fruto disso, creio eu, aumentada, talvez, pela solidão em que vivia por lá.

  3. paula Says:

    eu achei mtu interessante este texto…parabens para quem escreveu…estou até orgulhosa de ler este texto…era mtu ruim a vida das pessoas naquele tempo indabem que eu nem ers nascida!!!!!!!!!!!

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