Costa e Silva, Intelectual

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costa-e-silva.jpg Sessenta e seis. A ditadura, aos dois anos, se preocupava com relações públicas. Exemplo disso foram as muitas inciativas para mostrar que o General Costa e Silva não era burro. Nas ruas, o diz o diz-que-diz definia o homem como uma anta fardada. E mais ferinas e cruéis que o bochicho sobre o ministro do exército eram as muitas piadas que dele se contavam.

A propaganda oficial entrou em cena. Os jornais publicaram facsímiles do boletim escolar do homem em seus tempos de cadete. Notaças. Em matemática sempre dez. Em outras matérias nada menor que oito e meio. Aluno dedicado e muito inteligente. Não foi por acaso que chegou a general. Mas isso não foi o bastante. Resolveram então projetar o cara como palestrante, uma voz capaz de falar sobre as conquistas democráticas do governo. Não ficava bem o exército promover falas do ministro para platéias intelectualizadas. Aí inventaram um convite do Diretório Central dos alunos do Mackenzie. O ministro viria a São Paulo para um encontro com os estudantes no auditório do Caetano de Campos.

A UEE nos orientou a ignorar o evento promovido pelo Mackenzie. Tinha certeza que a palestra seria um redondo fracasso de público. Estudantes mackenzistas, mesmo que da extrema direita, não iriam se dar ao trabalho de arrumar casa cheia para o general. Mas muitos estudantes anarquistas e independentes resolveram aparecer (para vaiar e protestar).

Meu amigo e guru, Sigfredo ChiroqueChunga, índio do Peru, QI acima de 150 (confirma isso para mim, Eduardão), teólogo camiliano, me convenceu a comparecer. E lá fomos ele e eu somar forças com os anarquistas. No palco, Costa e Silva e uns oito oficiais ocupavam toda a mesa das autoridades. Na primeira fileira, uns gatos pingados da direita representavam os estudantes do Mackenzie. O auditório virou cenário para um happening anarquista. Vaia o tempo todo. Não me lembro de nada que o general falou. A meu lado, Chiroque escrevia furiosamente. Queria mandar uma bateria de perguntas embaraçosas para o ministro do exército. Outros estudantes faziam o mesmo. As perguntas foram para o palco. Nenhuma das selecionadas era do Chiroque. As questões lidas pelo mestre de cerimônia eram falas para levantar bolas para o general e seus oficiais (democraticamente, Costa e Silva transferiu algumas respostas para seus subordinados). Vaias. A certa altura, o general quis mostrar seus talentos intelectuais. Tentou citar um autor. O nome não veio. Aí ele tentou citar a obra. Esta também não veio. Até que num esforço tremendo de memória ele conseguiu articular o seguinte comentário: “uma obra muito importante … a … a enciclopédia britânica”. A platéia veio abaixo. As vaias cresceram. Nem o general, nem os seus oficiais, nem o mestre de cerimônia conseguiram prosseguir. Bateram em retirada. Saímos do Caetano de Campos com a alma lavada.

Jarbas

6 Respostas to “Costa e Silva, Intelectual”

  1. antoniomorales Says:

    Dizem que aquela música do Chico Buarque – Jorge Maravilha – que diz: “…você não gosta de mim mas sua filha gosta…” se refere ao Costa e Silva e sua filha ou seria ao Geisel e sua filha? Tanto faz. Mas o Chico nega no vídeo que pode ser visto se clicarem sobre o nome da música.

    Jorge Maravilha

    Chico Buarque

    E nada como um tempo após um contratempo
    Pro meu coração
    E não vale a pena ficar, apenas ficar
    Chorando, resmungando, até quando, não, não, não
    E como já dizia Jorge Maravilha
    Prenhe de razão
    Mais vale uma filha na mão
    Do que dois pais voando
    Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
    Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
    Ela gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócega
    Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
    Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
    E nada como um dia após o outro dia
    Pro meu coração
    E não vale a pena ficar, apenas ficar
    Chorando, resmungando até quando, não, não, não
    E como já dizia Jorge Maravilha
    Prenhe de razão
    Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando

  2. Jarbas Says:

    Tonhão,

    Dizia-se que o verso famoso era uma referência à Lucy, filha do Geisel. Embora o Chico negue, parece que a moça gostava mesmo dele ( e da música que ele fazia). Uma piada comum sobre herdeira do general era de que ela tinha tudo a ver com o hino nacional: comprida demais e ninguém queria cantar. Abraço, Jarbas.

  3. Eduardo Sposito Says:

    Jarbas e Tonhão.
    A filha era mesmo a do Geisel, também conhecida por BB. Aí o pessoal perguntava: quem? a Brigitte Bardot? E a gente respondia. Não, a Belém-Brasília, comprida e mal acabada.
    Além das piadas sobre o Costa e Silva: que na casa dele não havia azulejo, apenas amarelejo e verdejo: que era o autor, na escola primária, da redação que para ele ficou sendo: “Mãe, só tem uma.”
    Quanto ao Chiroque, não sei sobre o QI, mas que era um cara tremendamente participativo e engajado em todas as lutas que havia. Ótimo sujeito. Que bom que está na ativa.

    Eduardo

  4. Jarbas Novelino Barato Says:

    Alô Eduardo,

    O velho Chiroque continua com a bola toda. Criou e agita o IPP – Instituto de Pedagogia Popular lá no Peru. Alguns anos atrás fui a Lima e fiz palestra para um evento do IPP.

    Outra do Costa e Silva. Um dia ele saiu de madrugada pelo centro velho do Rio de Janeiro. Num sobradão antigo, uma velha ainda usava penico. Fez suas necessidades de madrugada. E como nos velhos tempos, despejou o conteúdo pela janela. Porum desses acasos da Providência, o material caiu em cima da cabeça do general. Ele foi logo dizendo que havia algo estranho em seu crânio. Estava escuro. O ordenança passou a mão sobre a cabeça do general. Cheirou a matéria. Imediatamente pediu socorro médico. Tinha certeza de que Costa e Silva sofrera um derrame cerebral. Abraço, Jarbas.

  5. Sigfredo Chiroque Says:

    Jarbas/Eduardao:

    ¡Feliz reencuentro virtual! En 1968, después del Encuentro de la UNE en Campinas, salí del Brasil. Apenas llegué al Perú, seguí con el compromiso social de siempre. Pero, en esos años tenía que soportar en mi Patria “al resto de cristianos que me acusaban de marxista y al resto de marxistas que me acusaban de cristiano”. Ahora continúo pugnando todavía en una sociedad nueva. Ojalá que nos veamos pronto.
    Sigfredo Chiroque

  6. Jarbas Says:

    Amigo Chiroque,

    Grande surpresa e grande prazer tê-lo por aqui. Espero que o Eduardão também converse contigo neste canto.
    Perdi seu e-mail. Mandei pedido de informação para o IPP. Ninguém me respondeu. Se você ler este comentário, me mande sua direção na Internet para jarbas@sdsualumni.org .
    Outra coisa. Você está intimado a escrever alguma crônica sobre os anos sessenta aqui no Brasil. Mande o texto para mim que eu o coloco aqui no blog, talvez traduzido, talvez em espanhol mesmo (afinal somos todos hermanos e entendemos un poquito de español).

    Abraço grande para você e para os amigos de IPP,

    Jarbas

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