Batismo de tinta

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Antes de começar é bom citar Guimarães Rosa:

“Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem de lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não” – Grande Sertão:Veredas

De início, para lembrar uma expressão da época, o fato a ser narrado precisa estar inserido no contexto, para ser válido, lúcido e autêntico.

O fato ocorre nos idos de 66, na campanha pela anulação do voto promovida pela UNE nas eleições daquele ano. Eu tinha saído recentemente (em 1963) de um noviciado nos padres Camilianos, de estilo medieval, com direito a autoflagelação, confissão pública de culpas, jejuns e exercícios de obediência cega, humildade, sacrifícios em geral… visando atingir a santidade. Em seguida um curso de filosofia escolástica resumido quase que exclusivamente a estudar Tomas de Aquino em latim.

Aí, ao final do curso, começamos a ler os existencialistas cristãos, depois os não-cristãos, Sartre, Kant, Hegel, Engels. Marx…

Ao mesmo tempo os ares do Concílio Vaticano II, o carisma de João XXIII, a posição avançada do Episcopado Latino Americano (a opção pelos pobres) possibilitaram uma inserção maior e mais politizada no sociedade.

Vários movimentos, que culminaram na Teologia da Libertação e nas Comunidades Eclesiais de Base, tiveram impulso nessa época, envolvendo os leigos (JEC, JOC e JUC) e o próprio clero e religiosos (lembro o movimento dos padres operários).

(Nessa altura, peço socorro ao Jarbas e ao Cordão que entendem o período melhor que eu e têm lembranças e participações em outras ações significativas. Aliás seria interessante aprofundar o entendimento da atuação da igreja católica no período, que o filme “Batismo de Sangue” dá um bom avanço.)

A minha participação pessoal, começa um pouco antes do golpe de 64 e lembro que (pela idade: tinha 19 anos) meu entusiasmo foi despertado pelo jornal do Frei Josapaht, o “Brasil:Urgente”, que teve um ano de duração.

Lembro ainda a manchete do primeiro número: “Remédios matam o Brasil” e do último, no final de março: “Direita prepara Golpe!” (Lembro disso, porque o jornal teve todos os números encadernados num volume só, e o responsável pela encadernação era um leigo, português, salazarista, que, não se conformando com o comunismo dos padres, fez a encadernação ao contrário, como protesto).

A participação aumentou com a criação de um centro de estudos juntando várias congregações religiosas o Instituto de Filosofia e Teologia – IFT – onde criamos um Diretório Acadêmico (a denominação Centro Acadêmico estava proibida pela Lei Suplicy) que filiamos à UEE e, por conseguinte, à UNE.

Então nosso representante foi preso no congresso da UEE em Santo André (Era o Chicão, que hoje é dono de restaurante em Brasília) o que nos levou à porta do DOPS no dia da libertação do pessoal, vestidos de padre, o que rendeu uma foto que foi capa da “Civilização Brasileira”.

(Jarbas, vai checando aí, o balancê dos fatos!)

Isso nos jogou de vez no movimento estudantil e começamos a participar de assembléias, passeatas, pixações…

E aí vem o meu batismo.

Campanha pelo voto nulo na eleição de 66, as palavras de ordem “Anule seu Voto. Abaixo a Ditadura” sendo pixadas com brocha, nos muros da cidade. Eu ainda no seminário, saía com as equipes de madrugada, fazendo as pixações.

Alguém sempre tinha um fusquinha; íamos em 4: dois pixavam e um em cada esquina para alertar sobre possível repressão. Saíamos no horário que era a troca das equipes de policiamento, segundo a direção do movimento, e cobríamos uma área determinada. Tudo muito poético, a repressão ainda não era braba.

Lembro de uma loira, bonita, cheia de curvas, lábios carnudos (uma tentação ao meu voto de castidade) que definiu o primeiro lugar para pixar: o muros da fábrica do pai dela.

O esquema montado no seminário era o seguinte: saíamos depois da meia noite, deixando uma janela aberta. Na volta, entrávamos pela lateral da igreja (Santa Terezinha, no Jaçanã) que tinha um portão nos fundos que dava acesso ao Seminário e à janela preparada.

Naquela noite houve um problema: a igreja tinha sido assaltada e os padres pediram um reforço policial das proximidades.

A equipe me deixou a duas quadras da igreja, para despistar, e cheguei sozinho à frente da igreja, as 3 horas da manhã, com as mãos todas sujas de tinta.

Uma viatura da polícia, na época também um fusquinha, estava estacionada bem no acesso à porta dos fundos e à janela salvadora. Como é que eu ia explicar que era um padre do seminário, chegando de madrugada, com as provas da pixação evidentes?

Vacilei um pouco mas resolvi arriscar. Na época achei que Santa Terezinha tinha me ajudado: os dois guardas estavam dormindo no fusca e pude entrar tranquilamente.

Em 66 a repressão ainda dormia. Coisa que não durou, muito como se viu logo depois.

Eduardo Sposito

2 Respostas to “Batismo de tinta”

  1. Novelino Says:

    Grande Eduardo,

    Tá tudo muito bem contado. E você diz que sou eu que me lembro das coisas… Fiz alguns links do seu texto com páginas da Internet. Se quiser, clicando em padres camilianos, você poderá ver como andam hoje os seus ex-confrades. Na página camiliana, se você clicar em ‘galeria de provinciais’, poderá ver umas fotos do Padre Munaro e do Padre Firmino, além de fotos de uns caras que não conheço. Fiz link tb para uma matéria da Folha sobre o Frei Josaphat. E mais outro link: Lei Suplicy (juro que não lembrava dela, lembrava-me apenas do bom comportamento do IFT ao criar um Diretório em vez de Um Centro Acadêmico – o nosso DAXIX). Abraço, Jarbas.

  2. José Antonio Küller Says:

    Eduardo

    Em relação à própria proposta do blog, foi fantástica a citação de Grande Sertões: Veredas.
    Abraços, Küller

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