Histórias daqueles tempos !

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Uma pequena história de um pouco antes de 68. Se não me engano foi em 66 ou 67. Eu trabalhava, como professor primário, na zona rural do Municípío de Sete Barras, perto de Registro.

Naquele ano tinha vindo, para a trabalhar na região, um amigo de Ribeirão Preto. Figura inesquecível em seu mais de 1:80m de altura e pouco mais de 65 kg de peso: magérrimo e com a cara do Caetano, que nesta época ainda vivia, desconhecido do mundo,  lá quietinho com a dona Nonô.

Em seu primeiro ano na região já dava mostra de sua inquietude: primeiramente resolveu comprar uma égua. Arguí do péssimo negócio na medida em que ele, como eu, planejava  sair, no fim daquele ano letivo, daquela escola para uma outra melhor localizada. Nada feito: comprou a égua que foi, no final do ano, vendida ao antigo dono pela metade do preço. Doutra feita, quando vínhamos,  de São Paulo para Registro este amigo se enrabichou, no ônibus,  com uma loira oxigenadíssima que ia para Curitiba. Resolveu ir para Curitiba, atrás de seu novo amor,  deixando suas malas por minha conta. No dia seguinte chega, todo desenxavido, na pensão onde morávamos; me contou que na rodoviária de Curitiba estava, esperando pela sua loira,  um mulato enorme, que logo que a vê lhe dá um forte abraço, um beijo ardente  e, sem mesmo olhar para trás, lá se foram os dois,  todo agarradinhos, deixando-o solitário e triste na fria plataforma.

Aí resolveu comprar nada mais, nada menos, que uma Winchester!!!

Para que? Não sabia, mas comprou.

Fomos , em um feriado prolongado, para Ribeirão Preto ver nossas famílias e com o amigo, claro,  sua Winchester. Na volta para Sete Barras uma pequena coincidência e muito azar: naquele dia seria desbaratada a reunião dos estudantes em Ibiúna, na qual, entre os presos, figurava o José Dirceu, se não me engano o Travassos e um grande amigo meu de Pedregulho, o Pedro Franco.

Fomos abordados – na naquele dia vigiadíssima Estação Rodoviária de São Paulo – por dois agentes da Polícia Civil que nos arguiu: para onde íamos?  o que fazíamos por lá?  e o pior: o que este amigo tinha dentro daquele enorme embrulho de papel pardo?

– “São flores secas.”

Frente a inteligentíssima resposta o próximo passo foi nossa ida  para um pequeno posto da Polícia Civil onde as “flores secas” foram desembrulhads e um interrogatório enorme e interminável aconteceu; documentos e fichas foram consultados, novas fichas foram abertas, demorados e longos telefonemas realizados e  o que nos salvou, creio, foi minha juventude, capacidade de argumentação e o principalmente o fato de que – realmente – não estávamos sabendo da reunião de Ibiuna.  Fomos liberados depois de, junto com dois agentes, comprarmos as passagens na velha Viação Nove de Julho para Registro e o compromisso de, chegando em nosso destino, telefonarmos para o escritório da Polícia Civil da Rodoviária…  

Esquecemos de cumprir este nosso compromisso.

Outra história, esta sim depois de 68…com certeza, penso, que foi em 69.

Uma tarde estávamos, em fila, frente o restaurante do CRUSP esperando a abertura do bandeijão para o jantar. Uma de nossas diversões, na época, era impedir ao máximo o “fura-fila” e o fazíamos da seguinte forma: ao ver alguém furar a fila em nossa frente , eu e a amiga Lu, simplesmente caminhávamos até frente dos “furões” e ali estacionávamos,  ganhando, muitas vezes, dezenas de posições para a tão esperada refeição. Claro que toda vez que isso acontecia era uma gritaria enorme, pequenas confusões e atritos mas quase sempre terminava com novos amigos… era assim .

Só que, naquela semana, a Polícia havia, finalmente, invadido a USP e os soldados tinham que mostrar serviço; assim, frente a primeira inocente algazarra, resolveram administrar o que sempre fazíamos por nossa conta. Fomos colocados, todos, em fila indiana a no mínimo um metro de distância um do outro, proibidos de conversar, assoviar … nos obrigaram a ficar calados sob o olhar atento  e armado dos soldados com seus fuzis; para uma fila de mais ou menos quarenta estudantes, nada menos que sessenta soldados,   lembro que fiz a conta e concluí que mesmo que não tivessem armados e resolvêssemos sair no tapa perderíamos feio: eram quase que dois por um…   

Outra história , esta, já na década 80.

Trabalhava, então, no Senac de Santo André e era comum, naquela época, distribuirmos panfletos para divulgar nossos cursos. Aí começa a história.

Um dos funcionários da unidade veio falar comigo que tinha recebido um primo que viera do norte tentar a vida em Santo André e que o mesmo poderia, face a um pequeno pagamento, se encarregar da distribuição dos panfletos… E lá vai o amigo do funcionário para frente da Estação Ferroviária distribuir os panfletos dos nossos cursos de Auxiliar de Departamento Pessoal, Secretária Júnior …

O ABC era, na época,  importante centro de atividades e movimentos operários e então…

A praça em frente a estação ferroviária fervilhava de operários e de soldados e o nosso novo colaborador nordestino, vê, na aglomeração, a oportunidade de cumprir sua função e inicia, com ardor, seu trabalho; só que a polícia vê em sua atitude uma afronta e lá vem cacetete. O rapaz tenta se explicar e, como resposta, mais cacetete.

Esbaforido o rapaz chega em minha sala entrega o restante dos panfletos, diz que apanhou muito e que não imaginava como tínhamos tido a coragem de lhe oferecer, por  tão perigoso e arriscado serviço, quantia tão pequena.

Paguei o prometido.

Orlando Nascimento

2 Respostas to “Histórias daqueles tempos !”

  1. Antonio Morales Says:

    Orlando…começamos nossas “carreiras” de modo similar: como professores primários em escola rural! Eu em 68. Em Ajapi, uma pequena cidade próxima a Rio Claro-SP. Posso dizer que naquela época era muito bom ser professor de escola rural.

    Não pelo salário, claro, que já não era grande coisa, mas pelo respeito e carinho que os alunos e os pais e toda a comunidade tinham por nós. Foi uma bela experiência e muito bom para a auto-estima de um jovem professor de 18-19 anos!

  2. Orlando Nascimento Says:

    É isso aí Tonhão….trabalhei como professor primário na região do Vale do Ribeira até que vim para São Paulo, fazer, em 68, um curso de especialização em quinta e sexta séries…Era uma época em que os professores concursados – meu caso – tinham oportunidade de realizar cursos na condição de “comissionado”, ou seja, recebiam seu salário para estudar em cursos da Secretaria de Educação…
    Aí, em 69, entrei na USP – Pedagogia – com o sonho de me tornar Diretor de Grupo; a vida, os sonhos mudaram e…larguei o Estado.
    Mas era muito bom ser professor primário naqueles tempos e eu tenho, inclusive, um passeio programado para a região onde trabalhei. Vou lá rever amigos, ex- alunos, paisagens!!!
    Orlando
    PS: Apesar do paciente auxílio do Jarbas, ainda peno, para enviar comentários. Um dia chego lá.

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