De volta para o Ceará

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República da rua Dr. José Cândido de Sousa, 58, Jardim Novo Mundo. Anos 1968/9. Uma experiência ousada dos padres agostinianos naqueles tempos de aggiornamento da Igreja. Doze estudantes de teologia e três padres desgarrados receberam um sobradão para viverem de modo bastante independente, sem as amarras tradicionais do seminário e do convento. Apesar de pertencermos a uma mesma e tradicional ordem da Igreja, vivíamos naquela casa como estudantes de qualquer república digna do nome. E no clima intensamente politizado da época, fazíamos escolhas que os demais companheiros de casa desconheciam. Por razões de segurança ninguém curiosiava em demasia as inclinações políticas de cada um.

A república recebia hóspedes inusitados. Em 1994 encontrei-me com Emiliana Casagrande e ela me relembrou um episódio do qual me havia esquecido. Ela se casara com um de nossos antigos companheiros de ordem, o Delfino, no Interior do estado do rio de Janeiro. Na viagem de núpcias em 1968, o casal passou uns dias na república da rua José Cândido de Sousa!

Um dia, no finalzinho de 1968, Zé Agostinho, conhecido como “O Anjo” desde que atuara em “As Troianas” no TESE (Teatro da faculdade Sedes Sapientiae) em 1965, chegou em casa com três rapazes do Ceará. Disse-nos que eles eram militantes da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e estavam precisando de abrigo. Aceitamos os cearenses. Eles se integraram à república. Semanas depois um deles, menino pequeno e magro, se foi para um alojamento mais próximo do centro da cidade. Perdemos contato com ele por algum tempo.

Uma noite o pequeno cearense apareceu em casa. Tinha ferimentos generalizados pelo corpo e estava apavorado. Contou-nos que fora preso numa incerta da polícia e passara a noite anterior apanhando e sendo interrogado numa delegacia. Deve ter contado que era da UBES e vinha do Ceará. Os meganhas soltaram-no numa travessa da Consolação com o seguinte aviso: “volte para a sua terra até amanhã, caso contrário você corre o risco de ser morto num ‘atropelamento”. Ele nos disse que não havia entregue nossa república. Por isso estava ali à procura de socorro, uma vez que nem a UBES nem seu grupo político poderia ser buscado naquele momento.

Saí à procura de gente que pudesse levantar uma grana para a viagem do cearense. Não consegui ajuda. No dia seguinte fui até o convento dos dominicanos e conversei com o Tito Alencar sobre o que seria possível fazer pelo seu conterrâneo. Armamos um esquema de retirada do menino magrinho. Mas ainda faltava a grana. O Tito sugeriu que pedíssemos ajuda à Therezinha Zerbini. Fomos até a casa dela. Obtivemos a ajuda necessária. Mas faltava ainda retirar o cearense de São Paulo. Não podíamos colocá-lo num ônibus sem a necessária cautela e segurança. Bolamos um plano de viagem por etapas. Em cada ponto do caminho, o cearense, se necessário, poderia se alojar em alguma casa religiosa de confiança. A primeira etapa seria São Paulo/Rio. Viajei com o menino até o Rio, onde eu poderia utilizar uma das casas dos agostinianos  como abrigo. Verificamos a segurança. Tudo parecia OK. Decidimos então que não seria preciso uma viagem por etapas. Assim, despachei o moço da UBES diretamente para Fortaleza e voltei para São Paulo. Três dias depois recebemos telegrama vindo do Ceará com a senha para “cheguei bem, estou em segurança”.

Jarbas

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