Das variações e limitações da memória

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 Meus caros

Para quem levanta o cálice, cabe o sacrifício! Vamos às memórias de 68…

Em 68, entrei na Faculdade. Por um conjunto de necessidades objetivas e de influências ocasionais, entrei em Pedagogia. Vinha da escola pública (IE), do noturno, do científico (exatas) e morava em um bairro operário que circundava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFI?) de Rio Claro (Brasil, SP). Hoje, uma unidade da UNESP. Da minha casa até a sala de aula não era preciso andar mais do que 300 metros. Os mundos às vezes são separados por pequenas distâncias e unidos por longas caminhadas.

A década de 60 e a minha juventude, como a de todos, foram plenas de acontecimentos marcantes. Se fora escolher uma música que me tocava e tocava na época ficaria em dúvida entre Alegria, Alegria (Caetano) e A Banda (Chico), além de muitas mais, algumas da chamada “velha guarda” e outras muito “cafonas”(Agnaldo Timóteo – “Se eu demoro mais aqui …”) que, depois, teria vergonha de revelar.  O ano de 68 e seu contexto político não marcariam, a não ser muito de raspão, a minha vida extra-universitária. Foi decisivo entrar e estar na universidade para que o ano de 1968 tivesse um significado especial em minha vida.

Ao pensar a minha vivência do ano 1968, é que emergiu o título do post. As memórias mais marcantes ainda são da vida antiga. Imagens dos papos com meus amigos do grupo de jovens (JOVEUNIÃO), que tinha sede em um barracão da paróquia, cuja Igreja dividia a esquina com a Faculdade. Igreja e Faculdade estavam em cantos opostos da mesma esquina. Há muito simbolismo para explorar por aí!

Depois das aulas, tirava os sapatos e jogava bola com os meninos ligados à JOVEUNIÃO. Eles mantinham um campinho de futebol com muita terra e pouca grama, bem em frente do prédio principal da FAFI, hoje um jardim com árvores frondosas. Para mim, essas árvores são testemunhas vivas do tempo que passa.  

As lembranças da vivência universitária são menos claras. Lembro que passamos um longo tempo do ano de 68 em Assembléia Permanente. Se a memória ainda é boa, discutíamos ou pretendia-se discutir o Acordo MEC-USAID. Chegando a esse ponto, percebo que preciso pesquisar mais para que a névoa se dissipe. O que propunha mesmo o dito Acordo MEC-USAID que fui convencido a repudiar tanto?

De dentro das limitações da memória, descubro algo importante. Comecei minha vida universitária e a minha carreira de educador discutindo os rumos da educação nacional. Nunca mais a minha reflexão pedagógica deixou de ter essa dimensão. Qualquer que fosse a teoria, a prática ou a praxis em relevo,  jamais consegui fazê-la tópica. Sempre dava uma dimensão nacional à proposta e procurava ver se ela era boa para o povo da minha terra e para meu país.

Vejo agora o fundo explicável de algumas brigas que tive. Esse fundo não redime meus erros e meus repentes de arrogância. Mas, é algo que pretendo conservar.  É algo de bom que aprendi em 1968.

 Küller

7 Respostas to “Das variações e limitações da memória”

  1. jarbas Says:

    Cara,

    Começo arrasador. Texto limpo e bonito. Que comecem as crônicas! Mas há ainda muita música pra rolar. E cadê o resto do povo que se comprometeu a co-laborar? Abraço grande, Alemão. Jarbas.

  2. Antonio Morales Says:

    Minhas memórias universitárias se confundem com as do Küller, pois foi na FAFI, em Rio Claro que nos conhecemos. Felizmente. Partilhamos de algumas(muitas?) coisas. Durante a vida universária em pleno movimento estudantil contra a ditadura. Muitas lembranças. Boas e más. Quem sabe poderemos partilhar algumas delas por aqui?

  3. Antonio Morales Says:

    Como eu e o Küller citamos o Acordo MEC-USAID sem maiores explicações, coloco uma breve descrição do mesmo abaixo. Cabe acrescentar que na mesma época – no mesmo pacote, por assim dizer- veio a Lei Suplicy Lacerda, de n.º 4.464 de 9 de novembro de 1964,que proibia as atividades políticas nas organizações estudantis, além de definir a regulamentação das mesmas.

    MEC-USAID

    Nome de um acordo que incluiu uma série de convênios realizados a partir de 1964, durante o regime militar brasileiro, entre o Ministério da Educação (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID). Os convênios, conhecidos como acordos MEC/USAID, tinham o objetivo de implantar o modelo norte americano nas universidades brasileiras através de uma profunda reforma universitária. Segundo estudiosos, pelo acordo MEC/USAID, o ensino superior exerceria um papel estratégico porque caberia a ele forjar o novo quadro técnico que desse conta do novo projeto econômico brasileiro, alinhado com a política norte-americana. Além disso, visava a contratação de assessores americanos para auxiliar nas reformas da educação pública, em todos os níveis de ensino.

  4. irece Says:

    Muito legal o que vc escreveu e a idéia do blog.
    Na semana que Fidel se afasta, fica um pouco da história que deu sentido as nossas vidas e continua sendo referência em nossas ações cotidianas.
    Valeu!

  5. Ocléia Maria Says:

    Antonio, Küller,

    Nessa época eu era presidente do Centro Acadêmico da Fafi. De todas as reformas propostas pelo acordo Mec- Usaid, estavam, fortalecidos também pela nossa ditadura, o fechamento dos Centros Acadêmicos e o encampamento do Instituto Isolado da USP pela Unicamp, que tinha como reitor o Zeferino Vaz, maior ” pelego da ditadura” ( para nós na época).
    A postura de todos os estudantes foi exemplar; a assembléia permanente nos deu força para continuarmos com o Centro Acadêmico livre, e expulsamos o reitor da Inicamp de Rio Claro.
    Apesar de toda a repressão saímos vitoriosos.
    Küller, nossa vida acadêmica foi cheia de reflexões, posturas políticas, conscientização, estudos, debates, considerações, re considerações, re conceituações, …
    Tínhamos que ser bons profissionais, ligados por um ideal, com visões macros e micros, com os pés na realidade…
    Só não entendi a arrogância.

    Um abraço

    Ocléia Maria

  6. josekuller Says:

    Ocléia

    Você me fez recordar das lutas específicas que tínhamos. Um outro comentário da Olguinha ajudou mais um pouco no avivar da memória. Acho que esta pode ser uma das funções do blog: recordar, recuperar e ampliar as referências sobre aqueles momentos tão significativos. Concordo com você que a nossa vida acadêmica, não necessariamente em sala de aula, foi fundamental na nossa formação e que nós, alunos, tivemos uma participação importante na criação dos espaços para o estudo, o debate, a crítica e, enfim, na construção das visões a que você se referiu. Essas visões foram construídas com paixão. Acho que é compreensível que em determinados momentos, no calor da luta, elas sejam consideradas como verdades definitivas.

    Abraços

    Küller

  7. PLINIO MONTANHEIRO Says:

    muitas saudades plinio

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