Arena Conta Zumbi

Junho 16, 2008 by José Antonio Küller

O post anterior, Cenas - 68 do Eduardo Sposito, motivou este. Também motivou a postagem da Página 29 Arena Conta Zumbi: A canção engajada no Teatro.  No seu post, Eduardo fala da peça teatral  Arena Conta Zumbi e da importância dela em sua vida. Tão importante a ponto de incluí-la em sua cerimônia de casamento.

Sem considerar a fluição da arte, Arena Conta Zumbi acompanha desde sempre a minha vida profissional. Já fez parte de muito projeto de curso. Não me foco nas partes escolhidas por Eduardo, embora goste delas. De Arena, fixei-me em A Mão Livre do Negro (Estatuinha) e Ave Maria. Dos motivos, os textos dizem por si.

Também inclui vídeos dos referidos segmentos. No vídeo de Ave Maria, a interpretação de Lima Duarte compensa a inadequação das imagens.

 

 

A Mão Livre dos Negros

 

Se a mão livre do negro tocar na argila

O que é que vai nascer?

Vai nascer pote prá gente beber

Nasce panela prá gente comer

Nasce vasilha nasce parede

Nasce estatuinha bonita de se ver

 

Se a mão livre do negro tocar na onça

O que é que vai nascer?

Vai nascer pele prá cobrir nossas vergonhas

Nasce tapete prá cobrir o nosso chão

Nasce caminha prá se ter nossa ialê

E atabaque prá se ter onde bater

 

Se a mão livre do negro tocar na palmeira

O que é que vai nascer?

Nasce choupana prá gente morar

E nasce a rede prá gente se embalar

Nasce as esteiras prá gente deitar

Nasce os abanos prá gente abanar

Prá gente abanar

Prá gente abanar

 

 

 

Ave Maria

Ave Maria cheia de graça

Olorum é convosco

Bendita sois vós entre as mulheres

Bendito é o fruto do vosso ventre

Bendita é a terra que plantamos

Bendito é o fruto que se colhe

Ave Maria. Bendito Seja

Ave Maria cheia de graça Olorum

Bendito é o trabalho nesse campo

Bendita é a água que se bebe

A mulher de quem se gosta

Bendito o amor, nossos filhos

Ave Maria, cheia de graça

Ave Maria. Bendito seja Olorum

 

Bendita a palmeira, o rio, o canavial

Bendito o peixe que se come

Bendito o gado que se come

Ave Maria, cheia de graça

Ave Maria. Bendito seja Olorum

Bendita a flecha e a caça

Ave Maria. Bendito seja

Bendita a enxada e a semente

Bendito seja cheia de graça, Olorum

Perdoai os nossos erros

Ave Maria, cheia de graça, Olorum

Perdoai, Ave Maria

Perdoai a morte que matamos

O assalto, o roubo, perdoai

Perdoai, Ave Maria

Ave Maria, cheia de graça

Perdoai, Ave Maria, Olorum

Perdoai o nosso orgulho

Perdoai, Ave Maria

Perdoai a fuga do cativeiro

Perdoai, Ave Maria

Perdoai a nossa coragem

Perdoai, cheia de graça

Perdoai a nossa rebeldia

Perdoai, Ave Maria

Perdoai as nossas dívidas

Perdoai, perdoai

Assim como nós perdoamos os nossos senhores

Perdoai, Ave Maria

Ave Maria, cheia de graça, Olorum

Amém! Amém! Amém

68 - Cenas

Junho 14, 2008 by antoniomorales

por Eduardo Sposito

Cena 16 - CASAMENTO TRAÍDO

Nós achavamos que estávamos fazendo todas as revoluções. Por isso as cerimônias de casamento também tinham que fugir à normalidade. Casei-me em 71, e não podia ser diferente.

O casamento foi realizado na capela do seminário em que estudei, no Jaçanã, zona norte de São Paulo (Hoje lá é um hospital psiquiátrico, não sei bem).

Negociei com o celebrante (que tinha sido o Diretor do Seminário) a liturgia para a cerimônia, que foi totalmente alterada. Basicamente: a noiva e o noivo entrariam juntos com os pais até o altar, onde os pais seriam dispensados com um discurso da noiva. Em seguida a cerimônia de mútua aceitação e de amor, concluindo-se com um discurso do noivo, tentando explicar o sentido da cerimônia.

Até porque, como se diria hoje, era um casamento temático. O convite foi feito num duplicador a álcool (o mesmo que foi usado pros textos da Martha Harnecker) e a capa do panfleto dizia:”Eu vivo num tempo sem sol” - que era o tema do poema do Brecht que inspirou a peça Arena Conta Zumbi.

Em resumo, se dizia que aquele não era propriamente um tempo de festas, com colegas nossos presos, torturados e desaparecidos. E que o que desejávamos era celebrar o amor e convidar a todos para participar dele.

O fundo musical era adequado para isso:

A música do Vandré, o frevo “João e Maria“, onde ele dizia que o povo andava atrás de qualquer alegria e jogou sua esperança na cantiga de João para Maria, concluindo com: “Quem sabe o canto da gente, seguindo na frente prepara o dia da alegria”.

Depois entraria o trecho da peça “Arena Conta Zumbi” em que se musicava o poema do Brecht, “Na Selva das Cidades”. Lembro alguns trechos: (alguns são do poema, outros da adaptação feita pelo Guarnieri (se não me engano) com música de Edu Lobo).

“Nasci na cidade no tempo da revolta
todos os caminhos iam dar no despenhadeiro”
“Veja bem, que preparando caminho da amizade
não podemos ser amigos: ao mal vamos dar maldade”
“É um tempo de guerra, é um tempo sem sol”(estribilho)
“E você que me prossegue, e vai ver feliz a terra
Lembra bem do nosso tempo, desse tempo que é de guerra.
Porque essa terra eu não vou ver”

Ou como dizia o Brecht:
“E você, que vem na crista da onda em que nos afogamos
ao lembrar deste tempo sombrio, pensa em nós com bondade.”

E pra encerrar, o “Caminhando” do Vandré.

E aí é que vem a traíção…à cerimônia:

O Walmar tinha ficado encarregado da sonoplastia: colocar os Lps na Vitrola na hora certa e com a música escolhida.

No lugar do “Tempo de Guerra”, ele colocou o “Universo do teu corpo” da Taiguara, o que não foi tão mau, porque a música é ótima e o Taiguara, engajado. Mas o que eu não perdoei, foi trocar o “Caminhado” pelo “Jesus Cristo, eu estou aqui” do Roberto Carlos!

Ele alegou não ter encontrado os discos, mas acho que ele tentava me “proteger” dos exageros esquerdistas.

Em todo caso não posso reclamar, porque o Walmar tinha sido vítima de um sequestro relâmpago pelos paramilitares da Operação Bandeirantes (braço armado marginal da repressão), colocado numa das terriveis Veraneios, ameaçado de morte se não se afastasse dos comunistas e abandonado num matagal.

Como se vê, foram aqueles bandidos que inventaram o sequestro relâmpago

Cena 17 - CANTIGAS DE EM…BALAR

Aproveitando a deixa da Cena 16, gostaria de lembrar músicas que embalavam o nosso (ou pelo menos, o meu) sonho revolucionário. Algumas só fizeram sucesso na época, ou só no meio dito “engajado” e hoje são pouco lembradas.

Muitas vezes uma palavra ou expressão, ou um modo de cantar adquiriam um sentido que pra nós era suficiente.

O teatro forneceu um bom repertório para isso:

O “Morte e Vida Severina” com o funeral do lavrador, (”Essa cova em que estás com palmos medida/ …é a terra que querias ver dividida”). Um trecho muito bonito era o da “Moça da Janela” que dizia que “aqui só prosperam aqueles que fazem da morte ofício ou bazar”.

O “Arena Conta Zumbi” com o trecho citado na cena 16, e cujo maior sucesso foi “Upa Neguinho” na voz da Elis.

O “Show Opinião” com Nara/Bethania, Zé Keti e João do Vale: “podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer… que eu não mudo de opinião” - e a mais conhecida “Carcará

O “Chiclete com Banana”, do Boal, baseado na música do Jackson do Pandeiro e que desmacarava a utilização da música popular pela mídia a serviços dos americanos, com trechos interessantes de entreguismo (”Até minha gente do morro só canta bolero e versão.Trocaram meu samba, coitado, por um piano alemão), até a reação contra a invasão de “mambo, rumba made in USA (iuesseei)”, cantado “Voltei pro morro, onde está o meu cachorro, meu cachorro vira-lata, minha cuíca, meu ganzá. Voltei pro morro, mas onde estão minhas chinelas que eu quero sambar com elas pelas ruas da cidade. Voltei! Voltei! Ah, se eu não mato essa saudade eu morro. Voltei”

E na época saíram Lps com as músicas dessa peças. O “Chiclete..” eu tenho.

Queria lembrar algumas que eu acho esquecidas:

Do Vandré, além do “João e Maria” da cena 16, lembro-me do “Porta Estandarte”, cantado pela Tuca, no festival da Excelsior em que a Elis ganhou com “Arrastão” de Edu e Vinicius. O refrão do “Porta Estandarte” era: “Na avenida girando o estandarte na mão pra anunciar”

Ainda do Vandré, a música do “Hora e a vez de Augusto Matraga”, mais ou menos isso:

“O que sou nunca escondi.
vantagem não contei.

Muita luta já perdi, muita esperança gastei
Até medo já senti, e não foi pouquinho não.
Mas fugir, nunca fugi. Nunca abandonei meu chão
O terreiro lá de casa não se varre com vassoura
varre com ponta de sabre, bala de metralhadora
Quem é homem vai comigo, quem é mulher fica e chora
Quero a quem anda comigo, sua vez e sua hora”

E tinha o Cesar Roldão Vieira. Se não me engano era dele, cantada pela Elis:

“Sapato de pobre é tamanco, a vida não tem solução.
Morada de rico é palácio e casa de pobre é barracão
A mulher do branco é esposa, a esposa do negro é mulher.
Mas minha mulher é só minha, e a do branco eu não sei só dele é.
A terra do dono é só dele, ali ninguém pode mandar.
Mas se eu não pegar na enxada, não tem ninguém pra plantar.”

Em resumo: não dava pra ficar alheio a isso tudo.

A música em 1968: os hits e os rapas

Junho 11, 2008 by José Antonio Küller

A propósito da página 28. A música em 1968 - Os hits e os rapas, acho interessante postar as músicas de 1968 de dois grandes ícones até agora esquecidos por nós: Chico Buarque de Holanda e Roberto Carlos.

Reminiscências

Junho 10, 2008 by antoniomorales

por Antonio Ozaí da Silva

Visitando o Blog do Ozaí, deparei com a matéria abaixo que tem tudo a ver com o Arquivo 68. Consultei-o sobre a possibilidade de postá-lo aqui e ele gentilmente nos visitou, gostou e gentilmente colocou lá um link de nosso Blog. (Antonio Morales)

Num tempo não muito longínquo éramos todos democratas. Lutávamos contra a ditadura militar, contra a violência institucionalizada e contra o dedurismo, oficializado dentro e fora das universidades.

Arriscávamos nossas vidas praticando, mais do que teorizando, o bom combate pela liberdade de expressão e de organização, pelo direito de greve, pelo direito de eleger diretamente nossos governantes. Éramos contestadores da ordem.

Era um tempo em que ser preso era um risco iminente presente nas atividades políticas mais simples: um discurso numa porta de fábrica, a participação numa greve, a propaganda política com pichações e afixação de faixas e cartazes nas madrugadas adentro. Tudo poderia ser motivo para tomar um ‘chá de banco’ em alguma delegacia ou passar umas boas horas preso até que viesse o ‘socorro jurídico’.

Lembro-me de certa feita quando colávamos cartazes divulgando o Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Fomos surpreendidos, abordados por policiais militares e literalmente jogados no desconforto do compartimento da viatura.

Nossa liderança, aproveitando-se da escuridão e da topografia da área e talvez por ser mais experiente, fugiu. Assustados como crianças diante do inusitado, espremidos naquele pequeno espaço do veículo, preocupávamos com o que poderia acontecer. Um amigo, mais fervoroso na fé que os demais, começou a rezar.

Outro, tenso, falava sem parar. Irritado, o policial deu-lhe um tapa no rosto. Afora a tortura talvez nada seja mais truculento e afronte a dignidade humana do que sofrer uma agressão deste tipo. Embora, o desprezo a outrem constitua uma forma potencialmente agressiva.

Fomos levados à delegacia. O delegado de plantão se divertiu muito com aqueles fedelhos metidos a revolucionários: fez cara e jeito de durão, ameaçou, aterrorizou. Só queria dar uma ‘lição’: após um bom tempo ali, sem contar com qualquer ajuda externa, a autoridade nos liberou – desde que um dos nossos pais comparecesse à delegacia.

Não lembro como; só sei que a certa hora da madrugada o pai de alguém chegou e fomos libertados. Nunca tocamos no assunto do ‘tapa na cara’ com o nosso companheiro. Mas isto deve tê-lo marcado, como a todos nós.

Éramos jovens sonhadores que pensavam mudar o mundo. Nem tínhamos a exata noção do que realmente era o movimento estudantil, suas tendências políticas, suas táticas e estratégias diferenciadas, a luta pelo poder.

Não sabíamos o quanto éramos manipulados por nossas supostas lideranças, preocupadas na verdade em tomar o poder e o controle da direção das entidades estudantis. Em nossa quase santa ingenuidade, não tínhamos a dimensão da complexidade da política. Tínhamos apenas a certeza de que era preciso fazer alguma coisa e que pensávamos que fazíamos a coisa certa.

Que fizemos a nossa geração? Que fizeram dos nossos sonhos? Onde andarão aqueles fedelhos que o tempo transformou em homens e mulheres responsáveis e adaptados? Alguns se tornaram líderes, outros seguidores; há os que foram bem-sucedidos profissionalmente, outros nem tanto.

Não sei dos outros, mas aprendi a desconfiar dos líderes, dos que precisam de discípulos a segui-los como mariposas em torno da luz – aliás, até se consideram “iluminados”. Compreendo os que necessitam de autoridades para seguir, mas prefiro os que investem na autonomia e na dúvida permanente.

Se eu pudesse aconselhar os jovens de hoje, diria: Duvide de tudo, de todos e até mesmo da suas certezas, por mais absolutas que pareçam!

Mais Ginette Reno

Junho 9, 2008 by Novelino

Aqui, Madame Reno canta uma valsa. Muito conhecida. Mas o que mais importa é o cenário, é o guarda-roupa. Quem não viveu os sessenta poderá perceber como era aquele tempo. Quem viveu a época matará saudades.

Memória de músicas que não ouvi

Junho 9, 2008 by Novelino

Em 1967 fui hóspede dos padre sionitas, ali na Lino Coutinho, Ipiranga. Fiz grandes amigos no pedaço. Na sala de estar dos sionitas havia discos e revistas da França e do Canadá. Aprendi ali algumas coisas sobre o Québec Livre. Me apaixonei por Françoise Hardy. Voz pequena, afinada sensual. Escutei-a vezes sem conta naquela sala de estar. Tenho hoje quase todas as músicas da primeira fase da Françoise. Continuo encantado, mas agora percebo que a qualidade do conjunto que a acompanha é sofrível. Aliás, a cantora, crítica e irônica, disse numa entrevista que não compreendia seu sucesso, pois suas melodias pouco variavam e os arranjos de seus discos eram toscos. Mas ela era linda e sua voz encantava.

Escutei também vezes sem conta um cantor canadense. Meu francês nunca foi grande coisa. Mas daquele tempo ficou para sempre em minha lembrança a melodia de uma canção e os seguintes versos:

Je veux ceinturer madame la terre

Faire un equateur avéc des souliers

Ano passado, quis descobrir quem era o cantor que há mais de quarenta anos ainda ouço em alguma parte de meu cérebro. Não tinha certeza se meus guardados eram fiéis. Recorri à nossa memória ampliada dos tempos de hoje: a Web. Digitei os versos citados no Google. Para meu espanto, o francês estava aparentemente correto e alguém citava os mesmos versos num blog. Fiquei sabendo então que o cantor cujo nome havia sumido de minha lembrança é Claude Léveillé.

Neste vídeo do Youtube, Léveillé canta Frederic. Acho que era uma das músicas que tantas vezes ouvi na sala de estar dos sionitas. Encomendei um disco do cantor na Amazon. Infelizmente a música que marca minha memória não está lá.

Continuei a buscar na Web mais informações sobre Claude Léveillé. E acabei encontrando uma cantora fantástica: Ginette Reno. Ouvi alguns de seus sucessos no Youtube. E encomendei um álbum duplo de suas músicas dos anos de 1960. Uma obra eclética. Tem iê-iê. Tem músicas bregas. Tem obras primas. Nas fotos, Ginette aparece com aquele sorriso inocente das mocinhas de então. Cabelo a la homme. Algumas das melodias do álbum são conhecidas. Uma delas é uma versão francesa da “Noiva” (em português também uma versão, acho que gravada por Ângela Maria). Mas eu nunca ouvira a maioria das músicas. Fato de pouca importância. Assim que comecei a escutar Ginnette Reno, voltei aos anos sessenta. As orquestrações são tão familiares… e lindas. Aquela moda de subir meio tom da melodia lá pelas tantas já é esperada. A batida é inconfundível: puro sessenta. Ouço vezes sem conta. Tenho outra vez vinte anos.

Não preciso mais comentar memórias de músicas que não ouvi, mas parecem tão conhecidas. Vocês também sentirão o mesmo. Vejam Madame Reno cantando um twist.

Amizade e política

Junho 7, 2008 by antoniomorales

Aconteceu em 1964, ou seriam nos anos seguintes?
Não me lembro bem. Meu pai, ferroviário, militante sindical,
eleito vereador e presidente da Câmara Municipal, foi cassado
pela Ditadura e interrogado pela sua polícia política.

Por pouco não se torna “desaparecido político” apenas por seus
discursos e lutas defendendo os trabalhadores da ferrovia e os
pobres. Mas foi salvo por uma amizade. Era amigo do peito e de
pescarias do delegado da pequena cidade onde exercia suas
atividades políticas.

Os “homens” apareceram por lá e levaram meu pai para
interrogatório na delegacia e na presença do delegado,
autoridade local, o amigo. Já foram logo acusando meu
pai de comunista, acusação recorrente na época contra
todos que discordavam da ditadura e sua política.
Serviu de pretexto para acusar, perseguir, torturar e
“desaparecer” com muita gente.

O delegado não se conformou. Apesar de temer “os homens”
disse:

- Puxa, eu vou pescar com esse homem todo dia, se
ele fosse comunista eu teria percebido. Ele é tão comunista
quanto eu. E vocês sabem que de comunista eu nada tenho!

Um ato de amizade e coragem.

No dia seguinte, minha mãe enterrou todos os livros que havia
em casa em um buraco bem fundo no quintal.
Por via das dúvidas, todos. Aqueles com algo vermelho na capa
ou com a palavra vermelho no título foram queimados, para maior
segurança.

Tempos cabeludos aqueles!

Per una donna

Junho 5, 2008 by rubens1

1948. Data redonda. Tinha eu 18 anos e 8 meses.

Olho-me no espelho. Cadê o rapaz? O tempo passou, na janela, na rua, dentro e fora de mim. Um escritor, Wilson Jacob Filho, a propósito de assunto bem diverso desta reflexão diz: “Ser jovem ou ser idoso é atemporal”. Sorocaba, onde nasci, era pequena em 1948. São Paulo estava à uma hora de trem. Escolhi o Rio de Janeiro, disposto a nadar ou afogar-me “em água grande”. A inclinação do intelecto encaminhou-me para a comunicação: jornalista, publicitário, relações públicas, memorialista. Os ensolarados e os escuros caminhos palmilhados nos sessenta anos passados são lembrados, ridos e chorados, em meia-dúzia de livros (Um dia estarão disponíveis na Internet).

Rubens Nogueira

Um rapaz de bem, do bem, sem bens

 

 

Per una donna

              Ventos uivantes na janela. Fria manhã, recém madrugada. O zéfiro invade os espaços, no outrora verde vale das laranjeiras. Insone, penso, penso, penso. Peter O’toole encosta-se na menina. Ela se retrai. Ele pergunta: “sente o cheiro de urina? Está muito forte? Ela responde: está menos que no outro dia, - “pode me beijar o pescoço, mas não me lamba, já tomei banho… Cena evocativa. Já vivi mais ou menos como no filme Venus – uma biografia não autorizada? O que resta, senão lembrar o tempo que passou, passou: a journey to a star, would not be very far. Ambigüidades, sonhos, ilusões, “I got you under my skin, in the botton of my heart, and I’m a litle lamb lost in the wood...” e tudo sublimado pela força das circunstâncias… A amizade é um paradoxo, quando flui, por mais breve que seja, elabora a transformação do amigo. Ser amigo é sempre ser outro e, o mais importante, o melhor amigo é também outro de si mesmo, pois a amizade modifica os amigos. Qualquer laço libidinal, por mais distanciado e respeitoso que possa ser, quer possuir e anexar o próximo. Vai sem aspas. Chaim Samuel Katz nunca lerá isto e não saberá que é minha homenagem ao colega de curso de estruturalismo, há quantos anos? Ele tinha cabelo, eu tinha topete – com duplo sentido, por favor.  

            Dores de amor que não cessam, não importa se realizados ou não. Fuga na música e no sonho: our love is here to stay, not for a day, but forever and a day, quem dera!  Vai minha tristeza, diz a ela que, sem ela, não pode ser… que somente um dia longe dos seus olhos…o mundo inteiro se faz tão tristonho. Ah Johnny Alf, ah Lima Barreto, ah Cruz e Souza, ah Otélo. Noveleta, uma composição breve, de caráter romântico ou fantástico, sem delineamentos especiais de forma, gênero, criado por Roberto Schumann, compositor alemão (1810-1856). Eu sou mais, você e eu… Quero te ver ao vivo e a côres e te ouvir, quando exaltar tua beleza: menos, menos, me poupe. E corar, e me repelir, e dizer, ô homem atentado e, nos momentos descontraídos usar frases: vamo nessa? E em vez de faca de dois gumes, lâmina de dois legumes, lembra-se do amor, o sorriso e a flor? A poesia de bossa nova embalando quimeras, podem imaginar o que melhor lhes parecer, você que é bonita demais (la píu bella ragazza), este teu olhar tão juntinho ao meu, só tinha que ser com você, sabes que te quero, mesmo que fiques de mal. “El tiempo presente y el tiempo passado tal vez en el tiempo futuro estén ambos presentes. Y el tiempo pasado contenga el futuro”, é o que pensava T.S. Eliot. Teu rosto de  madona dos Alpes trentinos, teus cabelos de ouro, bastos e  compridos, tuas ancas bamboleantes dentro dos panos azuis, ó como dói, cachorra de um dono só, ai você me enlouquece, sua cavala béstia, que amo de paixão. “Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigí-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes”. Saramago, estou tentando.  

            Achava, jactancioso, ter escrito um romance para acabar com todos os romances. Qual! Trabalhou seis anos, para fixar em dezoito horas, cobrindo centenas de páginas, o que lhe ia na alma. Sementeira para muitos seguidores, nenhum, até hoje, com a mesma competência, talento, cultura. Tudo, no fundo, para exaltar uma mulher.  Isto é “Ulisses” de James Joyce. Paulo Coelho lembra que Jorge Luiz Borges disse, uma vez, que só existem mesmo quatro histórias para serem contadas: 1 – Uma história de amor entre duas pessoas; 2 – Uma história de amor entre três pessoas; 3 – a luta pelo poder; 4 – uma viagem. Será?  
            É duro o ofício de escrever. Essa verdade de José Saramago, quando o homem fala da mulher, faz lembrar Lacan: “Ele crê desejar porque se vê como desejado, e não vê que o que o outro quer lhe arrancar é o seu olhar”, citado por José Castello. E agora? Que faço do que sinto? Como explicar a você o que esse AMOR aqui delineado representa para mim? Cronos, cruel, crucifica criaturas. Eva, Helena, Julieta, Beatriz, Dalila, Isabel, Penélope, Heloisa, Mei-ling, Circe, e Você, tão longe e tão perto, sonho do meu sonho que, amiúde, às cegas, tateio nos labirintos do inconsciente, Vênus tornada Rebeca, que ilumina meus olhos e aquece minha vida. “Aquele que deseja, mas não age, fomenta a pestilência” – Blake. Como em Dom Giovani, “mi trema um poco il cuore” quando te vejo em nossos momentos, nossas trocas, nossa sintonia. Como viver sem ti, Meu Deus?    

A geração de 68 fracassou?

Junho 5, 2008 by José Antonio Küller

Nos comentários de “1968: A torre do Banespa X 2008: a torre do Santander“, foi iniciada uma discussão, que depois se interrompeu. O debate girava em torno das conseqüências das lutas dos jovens na década de 60, especialmente em 1968. Ele foi suscitado pelo texto do Orlando Nascimento,  que assim concluia: Minha geração fracassou!

Como forma de estimular a continuidade da discussão destaco, em Páginas 26, o artigo: “Maio de 68 e a história sem fim“, que já havia sido indicado em Artigos Pertinentes (8). Espero que gostem da leitura e que ela faça reviver o debate.

Küller

Foto do dia

Junho 2, 2008 by José Antonio Küller

Estudantes em greve no Rio de janeiro. Foto do Arquivo Nacional feita em 1 de junho de 1968.