Arquivo da categoria ‘artes plásticas’

Arte e Revolução

Abril 25, 2009

cuban-poster-51Tempos revolucionários costumam abrir espaço para manifestações artísticas mais ousadas e originais. Pena que isso não dura muito. Algum tempo depois da revolução, burocratas começam a pontificar sobre formas de comunicação, correção de linguagem, correção ideológica etc. Resultado: expressões “oficiais” de arte, sem inspiração, realisticamente equivocadas etc.

Acabo de ler no twitter do meu amigo Bernie Dodge uma nota sobre posters cubanos dos anos sessenta. As produções da época estavam descoladas da influência soviética e do realismo socialista. As obras são de muita originalidade e criatividade. Conhecemos uma delas, a famosa foto do Che. Outras não tiveram carreira tão longa e universal, mas merecem ser vistas. Copiei duas delas aqui. Para ver a fonte indicada pelo Bernie, uma coleção bastante expressiva dos cartazes cubanos dos anos sessenta, basta clicar no poster abaixo.

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Maria Antonia era o nosso Quartier Latin

Outubro 17, 2008

Procurando enriquecer a recém-criada categoria “bares da época”, iniciei uma pesquisa sobre o Bar do Zé. Pensei que ele tinha sido citado pelo Jarbas em Duelo na Maria Antonia. Depois percebi que não. Seguramente o bar foi citado em 1968, publicado pelo Sidão.

Encontrei um artigo em que o Henrique Meirelles (sim, o atual presidente do Banco Central) confunde o Bar do Zé com o Bar sem Nome, outro dos ícones da época. Dizem que lá, no Sem Nome,  o Chico Buarque fez ou apresentou as suas primeiras composições. >.

Fiquei pensando que a confusão entre os dois bares revela que o Meirelles, embora circulando na época pelo pedaço, não devia ser um grande frequentador de tais ambientes culturais. Não sei se o Chico foi frequentador do Zé como o foi do Sem Nome e do Bar Riviera.

De repente, encontro uma matéria muito interessante. O Cláudio Tozzi falando do Bar do Zé de forma restrita e, em geral, da Rua Maria Antonia, a qual ele denominou de nosso Quatier Latin.

Percebi que o texto poderia enriquecer duas de nossas categorias recentemente criadas: a dos bares e a de Artes Plásticas. Dois posts incluídos nessa última categoria estão muito relacionados com o artigo que encontrei: 1968: Mais Artes Plásticas e As Artes Plásticas na Década de 60 e em Maio de 68.

Assim, não resisti à tentação de reproduzir o artigo da Série SP 450, da Folha de São Paulo, em Arquivo68. Os mais puristas poderão encontrá-lo em seu lugar original clicando aqui.

 

LUIZ CAVERSAN
da Folha de S.Paulo

As primeiras pedras e ovos começaram a voar ainda no dia anterior, quando secundaristas e alunas da Faculdade de Filosofia da USP faziam um pedágio na rua Maria Antônia para recolher dinheiro para o movimento estudantil.

Mas a “Batalha da Maria Antônia” estourou mesmo no dia seguinte, 3 de outubro de 1968, uma sexta-feira. E seu saldo foi trágico: um estudante secundarista (José Carlos Guimarães, 20) morto com um tiro na cabeça, três universitários também baleados e dezenas de feridos.

Além do prédio da Filosofia invadido e depredado por alunos da vizinha Universidade Mackenzie e integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), quebra-quebra, confronto com policiais e diversos automóveis incendiados.

Claudio Tozzi - Foto Matuiti Mauezo

 O artista plástico Cláudio Tozzi, 58, participou ativamente daqueles dias conturbados, que colocaram a cidade de São Paulo no clima do que estava ocorrendo no resto do mundo, sobretudo na França.

“A Maria Antônia era o nosso Quartier Latin”, afirma Tozzi, referindo-se ao boêmio bairro parisiense que, em maio de 68, viveu verdadeiras batalhas campais.

A semelhança com Paris não se referia apenas à contestação violenta. “A região da Maria Antônia era muito festiva, um ponto de encontro, uma parte da cidade agradável e animada”, diz Tozzi.

Agradável enquanto as relações do movimento estudantil ligado à esquerda não passassem a se estranhar violentamente com os conservadores do Mackenzie.

“Sempre houve provocação”, recorda Tozzi, como os roubos de urnas da eleição estudantil de 67. Mas havia também a animação das passeatas que rapidamente agregavam alunos das escolas próximas. “Em dois minutos, o que acontecia na Filosofia já chegava à FAU, onde eu estudava. Dali para a Administração de Empresas era um pulo, e de repente estava todo mundo lá.”

O ambiente cultural também florescia, tanto nas escolas quanto nos bares da região, entre eles o lendário Bar do Zé, na Maria Antônia com Dr. Vila Nova.

Tozzi foi preso duas vezes, embora não constituísse uma liderança, como eram o atual ministro José Dirceu ou Luiz Travassos, da União Nacional dos Estudantes. Era, sim, um militante, e como tal sentiria a força do regime militar.

“A primeira prisão foi coletiva, mais de 60 estudantes, no largo da Concórdia, em uma ação comandada pelo então famoso policial Raul Careca. Na segunda, a coisa foi mais séria: acabei preso pela Oban [órgão de combate aos opositores do regime] e levado ao Doi-Codi [repartição do Exército que atuava na repressão].”

Segundo afirma, Tozzi foi submetido a maus tratos por pelo menos uma semana.

Como seria de se esperar, sua pintura foi fortemente influenciada pelos acontecimentos da época: “Na verdade, eu fazia uma espécie de retrato daquilo tudo. Fotografava e documentava, depois fazia intervenções nas fotos ampliadas, o que resultava num trabalho afinado com a realidade. Não era, de jeito nenhum, uma pintura de cavalete. Buscava uma comunicação mais ampla, tanto que expunha até em fábricas. Tinha a preocupação de vincular arte com luta pela liberdade, sob a influência de tudo o que acontecia no mundo de então e tendo São Paulo como cenário.”

1968: mais artes plásticas

Agosto 4, 2008

Inciamos, há pouco tempo, a postagem de obras de artes plásticas criadas em 1968 e influenciadas pelos acontecimentos daquele ano. Antonio Morales também postou  um artigo de Almandrade a respeito do tema: As Artes Plásticas na Década de 60 e em Maio de 1968 . Com este post, enriquecemos a categoria com reproduções de obras de Claudio Tozzi:

Cláudio Tozzi - Multidão - 1968

Cláudio Tozzi - Multidão - 1968

 

 

 

 

Cláudio Tozzi - Guevara Vivo ou Morto - 1967

 
 
 
 
A obra à direita é de 1967. Mas, é tão 68 que vale figurar na galeria.
 
 
 
 
 
 
Cláudio Tozzi - A prisão - 1968

Cláudio Tozzi - A prisão - 1968

Para continuar, duas reproduções da mesma obra de Antonio Manuel:
  
Esta obra de Antonio Manuel foi objeto de um estudo  - Arte e movimento estudantil: uma análise de uma obra de Antonio Manuel, disponível na Internet.
 
 
 
 
 
 
 
 
 A reprodução da obra de Maurício Nogueira Lima - Não Entre à Esquerda – que encerra este post, também não é de 1968. É de 1964. Mas, não tem tudo a ver?

 

                                          José Antonio Küller

AS ARTES PLÁSTICAS NA DÉCADA DE 60 E EM MAIO DE 68

Julho 17, 2008

por Almandrade (artista plástico, poeta e arquiteto)

Nas sociedades dominadas pelas modernas condições de produção, a vida é apresentada como uma imensa acumulação de espetáculos, tudo o que era diretamente vivido vira uma mera representação.”

Guy Debord

Maio de 1968 foi a explosão do espetáculo e o encerramento de uma década turbulenta, de muitas mudanças, da tomada de consciência dos desastres do século XX: a violência, a guerra, os campos de concentração, a bomba atômica. O progresso tecnológico sem levar em consideração os direitos humanos, enfim o desenvolvimento à serviço da destruição.

O imperialismo e a ditadura da sociedade de consumo. Jean Luc Godard, em 1967 realiza A Chinesa, um filme político sem desprezar a experiência estética, onde um grupo de estudantes parisienses revoltados com o imperialismo brinca de fazer a revolução. Uma antecipação da organização dos estudantes, com muitas dúvidas e incertezas, em maio do ano seguinte.

A década de 1960 é marcada pela velocidade das vanguardas artísticas, que tem Nova Yorque como capital cultural do século XX. Dentre as manifestações artísticas como Minimalismo, Op Arte, Arte Cinética, Novo Realismo e Tropicália, a Pop Arte surgida na Inglaterra, mas apropriada e difundida pelos norte americanos foi a vanguarda mais decisiva da década.

Sem programa preestabelecido, sem manifesto, utilizando-se do repertório do cotidiano do consumo e da cultura de massa, foi rapidamente transformada em tendência internacional. Isso mostrou o poder cultural dos americanos.

O desafio aos policias e os protestos dos estudantes nas ruas de Paris foi um marco que desencadeou movimentos de contestação, em vários Países, revoltas e guerrilhas urbanas. Estudantes, artistas e intelectuais ocupam as ruas, fazem passeatas. A contra cultura, a revolução cultural. Os artistas plásticos abandonam os museus, as galerias, saem da solidão dos ateliês e se misturam na multidão.

É a poética do gesto, da ação, da coletividade, a utopia da arte / vida como participação do espectador na realização da obra de arte. No Brasil a Tropicália de Hélio Oiticica, foi uma das manifestações mais polêmicas, ao lado de Terra em Transe filme experimental barroco de Glauber Rocha e a peça O Rei da Vela de Oswald de Andrade, dirigida por José Celso Martinez.

É a década dos Happenings, surgidos com a Pop arte, uma espécie de teatro instantâneo, uma mistura de artes visuais, música e dança, que convida o espectador a participar da obra ou da ação, uma forma de tirar-lo da passividade fazendo-o reagir à provocação do artista e do cotidiano político social. Para Jean Jacques Lebel, autor de vários happenings em Paris: “Nosso primeiro objetivo é transformar em poesia a linguagem que a sociedade de exploração reduziu ao comércio e ao absurdo.”

Artistas rebeldes, engajados, inconformados com a comercialização e exploração da arte e contra as outras formas de opressão da sociedade. No Brasil, os Happenings realizados em espaços públicos das trocas coletivas, foram uma forma utilizada pelos artistas de vanguarda para chamar a tenção da população do que estava acontecendo nas prisões. Manifestações muitas vezes interditadas pela polícia.

Na arte, é o momento da transição da vanguarda para a contemporaneidade. O atestado de óbito da Modernidade. Os procedimentos da arte passam dos polêmicos questionamentos dos suportes tradicionais ao fim do suporte como elemento essencial da obra de arte. É o momento da arte conceitual que vai dominar na década seguinte. Uma arte mais fria, cerebral, menos engajada, voltada para interrogar sua própria natureza. Uma manifestação que aconteceu em vários Países, quase ao mesmo tempo, inclusive no Brasil.

Os agitados anos de 1960 transformaram a imagem das cidades. Em 68, aparecem as primeiras manifestações de graíitis nos muros de Paris, uma nova forma de intervenção urbana. Nas palavras do teórico francês Jean Baudrillard: “…um novo tipo de intervenção na cidade, não mais como lugar do poder econômico e político, mas sim como espaço / tempo do poder terrorista dos mídia, dos signos e da cultura dominante.”

Grafítis anônimos paralelo aos happenings dos artistas. Uma geração de artistas e críticos toma consciência sobre o estado em que se encontra a civilização a sociedade e os regimes políticos e se colocam diante de uma abordagem mais crítica e de certa forma subversiva. O artista assume o papel de revolucionário e faz de sua arte um instrumento à disposição da revolução social. Fazer arte era fazer política. Ação e estética faziam parte das intenções do artista.

Verifica-se no cenário internacional das artes plásticas, já no começo da década de 1960 o abandono das linguagens abstratas, geométrica e gestual, e retorno da figura, ou melhor, uma apropriação da figura como fez a Pop Arte com as imagens divulgadas pelos mídia transformando-as em naturezas mortas da sociedade de consumo.

No fenômeno da nova figuração o que interessa é o significado da imagem e não uma forma representativa. Uma imagem mais alusiva, grotesca e provocativa. A estética do mau gosto desafiando uma sociedade do bom gosto, industrial e politicamente “correta”.

A obra do artista plástico carioca Rubens Gerchman, representa bem esse momento na arte brasileira. Muitas das propostas artísticas da vanguarda brasileira que se desenvolveram entre 1964 e 68 estavam comprometidas em dar respostas ao golpe militar. A nova linguagem figurativa dialogava de forma mais direta com a realidade político social. Em paralelo a uma arte de denúncias, bastante difundida pelos militantes políticos, surgiram outras manifestações de arte coletiva abertas à participação do espectador como as propostas de Hélio Oiticica e os Domingos da Criação organizados por Frederíco Morais.

Em 1968 no Salão de Brasília, o Porco Empalhado de Nelson Leirner, artista paulista integrante do Grupo Rex, não era apenas o questionamento da instituição arte, interrogava as outras instituições da sociedade, naquele contexto político.

A experiência francesa foi palco onde os ideais e as paixões acumuladas explodiram e deu início a uma revolução que mudou a história do século XX. A guerrilha se espalhou pela América Latina, reivindicações de todas as partes e de todos os tipos, liberdade sexual, racial. Nos EUA, os estudantes revoltados com a cruel possibilidade de morrer na guerra do Vietnã, protestaram. No Brasil estudantes em passeata enfrentam a repressão militar, em abril de 1968, a polícia mata o estudante secundarista Edson Luiz no Rio de Janeiro e em dezembro o golpe mortal do governo militar, o Ato Institucional Nº. 5. O auge da repressão. Ninguém mais se sentia seguro.

A arte foi proibida na rua, exposições fechadas, como a Bienal Nacional em Salvador e artistas presos ou vivendo na clandestinidade ou no exílio. Fecharam-se as cortinas e o espetáculo passou a ser encenado na obscuridade.

Almandrade (artista plástico, poeta e arquiteto – brasil)
ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO BLOG CONFRARIA DA ALFARROBA

68 nas artes plásticas

Julho 16, 2008

Para tratar o tema do Arquivo68 de um outro ângulo e inaugurar uma nova categoria, posto as reproduções de dois quadros do artista português Júlio Pomar.

Julio Pomar - Maio de 1968

Julio Pomar - Maio de 1968

 

Júlio Pomar - Maio de 1968 (CRS - SS), 1969 - Acr�lico sobre tela, 130 x 162 - Coleção de Jorge de Brito (Cascais - Portugal)

Júlio Pomar - Maio de 1968 (CRS - SS) II, 1968 - Acrílico sobre tela, 97 x 130 - Coleção de Jorge de Brito (Cascais - Portugal)