03. Liberdade, Liberdade

Por José Antonio Küller

Citei, em Das variações e limitações da memória 2, a peça teatral Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes e Flávio Rangel. Dela, duas cenas me acompanham ainda hoje: a primeira e a última. Na primeira montagem da peça, em um momento da primeira cena, Paulo Autran diz:

“Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existentes nesses metros de tablado, esse é um homem de teatro. Nós achamos que é preciso cantar (no fundo, os acordes da Marcha da Quarta-feira de Cinzas). Por isso,

‘Operário do canto, me apresento
 sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
 minha alma limpa, a face descoberta,
 aberto o peito, e – expresso documento -
 a palavra conforme o pensamento.
 Fui chamado a cantar e para tanto
 há um mar de som no búzio de meu canto.
 Trabalho à noite e sem revezamentos.
 Se há mais quem cante cantaremos juntos;
 sem se tornar com isso menos pura,
 a voz sobe uma oitava na mistura.
 Não canto onde não seja a boca livre,
 onde não haja ouvidos limpos e almas
 afeitas a escutar sem preconceito.
 Para enganar o tempo – ou distrair
 criaturas já de si tão mal atentas,
 não canto…
 Canto apenas quando dança,
 nos olhos dos que me ouvem, a esperança.”  

 Os versos são um excerto de Profissão do Poeta, poema de Geir Campos.

Acredito que se possa dizer da tarefa de educar o mesmo que é dito em Liberdade, Liberdade a respeito do ator e, no poema, do poeta. Até hoje, quando vou iniciar um curso, repito mentalmente as palavras: “Operário do canto…”. É, para mim, também sempre presente uma analogia entre a sala de aula e “os poucos metros de tablado” e as conseqüências similares de uma vida dedicada, com paixão, a esses particulares espaços de ação.

A cena final de Liberdade, Liberdade também é marcante. Dela, fiz uma adaptação  para fins didáticos. Uso essa adaptação como uma cerimônia de conclusão de curso. Ela está reproduzida a seguir.

Começo dizendo:

 “A última palavra é a palavra do poeta; a última palavra é a que fica.
A última palavra de Hamlet:
O resto é silêncio.
A última palavra de Júlio César:
Até tu, Brutus?
A última palavra de Jesus Cristo:
Meu pai, meu pai, por que me abandonaste?
A última palavra de Goethe:
Mais luz!
A última palavra de Booth, assassino de Lincoln:
Inútil, inútil…
E a última palavra de Prometeu:
Resisto!”
A última palavra de Y (nome de um participante).
O participante diz sua última palavra.
A última palavra de X (nome de outro participante). A cena anterior se repete, com X dizendo sua última palavra.
A última palavra de N (nome do último participante). A cena se repete.
Por fim,  digo a minha última palavra e encerro o curso.
Até a última palavra de Prometeu, o texto é de Liberdade Liberdade.

 

Não é em todo o final de curso que promovo essa cerimônia de encerramento. Reservo-a para aqueles cursos que efetivamente foram espaço para vivências profundas e oportunidade de aprendizagens muito significativas.  Não sei se por isso ou pela força da cena, o momento é sempre emocionante. Tão emocionante quanto foi viver a cena final, quando a assisti pela primeira vez.  

Küller

17 Respostas to “03. Liberdade, Liberdade”

  1. zecaildefonso Says:

    Senhores,
    Tenho ainda o LP da peça. Por uma garrafa de pinga de boa qualidade posso ser corrompido a fornecer cópia pirata em CD, também de boa qualidade.

    • Benê Silva Says:

      Zeca,
      Esse LP de Liberdade, Liberdade, vale um alambique. Estou trabalhando o texto com alunos da Oficina de Teatro e gostaria muito de ter uma cópia, mesmo pirata…

      A cachaça que te espera é mineira e é da boa!

    • silvia lemos Says:

      Zeca, adoraria ter uma cópia em CD de Liberdade, liberdade. Dão me importa se pirata. Você poderia conseguí-la para mim? O preço é mesmo a garrafa de pinga de boa qualidade?!
      Concordo com o Benê, este CD vale um alabique!

  2. antoniomorales Says:

    Relendo alguns de meus guardados encontrei um depoimento do João das Neves em um livreto sobre o Paulo Pontes, sobre a peça Liberdade, Liberdade citada em sua mensagem. “Nos tempos de Liberdade, Liberdade” que considero interessante reproduzir aqui, como complemento de memória:

    ” Depois do show OPINIÃO, em dezembro de 64, fizemos a peça proposta por Fávio rangel e Millor Fernandes, LIBERDADE, LIBERDADE. Eu fazia a produção e o Paulinho com a Tereza Aragão, se não me engano, a promoção da peça.

    Neem preciso dizer que, ao lado do espetáculo, havia uma discussão permanente entre Paulo e todos os outros. Essa era uma característica da personalidade dele e do próprio grupo. LIBERDADE, LIBERDADE foi muito importante para nós; foi o primeiro espetáculo, em muitos anos, no teatro brasileiro que viajou quase o Brasil inteiro.

    E nessa viagem, o Paulinho Pontes ia quase à frente do LIBERDADE, LIBERDADE. Fomos montá-la no Sul, e ele ficou acompanhando o grupo, com a função de administrador. Ele participava de discussões políticas, culturais, nas faculdades. O resultado mais importante disso é que ele conseguiu trazer para essa discussão um elemento como Paulo Autran, ator ligado a tradições do teatro brasileiro, como o TBC(Teatro Brasileiro de Comédia).

    Aí por volta de 1967, a situação era muito difícil para nós. Com a liderança adquirida nesses anos estávamos, por assim dizer, em todas. Trabalhávamos 24 horas por dia. Participávamos de tantas coisas que parecíamos zumbis; oito zumbis. Pode parecer besteira, mas havia um imenso cansaço físico em todos. O Paulinho, que sempre foi um rapaz doente, estava quase tuberculoso.”

    Extraído do folhetim Paulo Pontes, a arte da resistência. Coleção Testemunhos. Editora Versus – 1977.

  3. José Antonio Küller Says:

    Zeca, com muito atraso, aceito sua oferta em relação ao LP. No nosso próximo encontro, leve a cópia de boa qualidade. Levarei a moeda de troca.

  4. Alvaro Gomide Says:

    Senhores,

    Gostaria de saber se existe a possibilidade de eu conseguir uma cópia do LP, pois faço parte de um grupo de teatro amador em minha cidade e estamos pensando em encenar Liberdade, Liberdade no fechamento da oficina. O LP seria de grande valia. Há esta possibilidade?

    Um abraço,

    Álvaro Gomide
    Garopaba, SC

  5. José Antonio Küller Says:

    Alvaro

    Enviei sua solicitação ao Zeca, um dos nosso autores. Havendo a possibilidade, para onde e como podemos enviar o LP?

  6. Alvaro Gomide Says:

    Jose Antonio,

    Tens algum e-mail onde eu possa mandar o endereço para envio ? Aproveito para perguntar se haverá alguma despesa e se é possível mandarem via correio a cobrar.

    Um abraço,

    Álvaro

  7. José Antonio Küller Says:

    Ávaro

    Estamos entrando em contato por e.mail para resolver a questão do envio.

    Abraços

    José Antonio Küller

  8. Natália Says:

    Olá Senhores,
    Gostaria de saber como poderia adquirir uma copia do LP, sou atriz e estou fazendo uma pesquisa sobre o Liberdade, liberdade. Sou apaixonada pelo espetáculo e tenho pretensões de levar minha pesquisa para o mestrado, tendo assim tenho enorme interesse por qualquer material referente ao espetáculo e ao teatro da década de 60. Seria eternamente grata caso houvesse essa possibilidade da copia.
    Natália Barud

  9. Mariângela Diniz Says:

    Olá… também sou encantada com a peça de Millor Fernades: LIBERDADE LIBERDADE… temos o livro na biblioteca da minha escola e uma fita k7 gravada do disco de vinil da minha irmã…. sempre emociono ao ouvir a voz de Paulo Autran. Magnifica a interpretação deste inesquecível ator de teatro!

  10. Aliomar J Pereira Says:

    Zeca, (permita chamá-lo assim, achei simpático)

    Foi identificação imediata, quando li seu porquê de adaptar “Liberdade, Liberdade”, aquela coisa de sala e metros de tablado. Sinto assim, também, vejo e ajo assim. Precisamos fazer, mesmo, a diferença na vida destas criaturas que se nos entregam como educandos.
    Afinal, ele nos ensinam tanto! Basta lhes dar abertura.

    Quero agradecer pela oportunidade que me está sendo encontrar seu trabalho.
    Grande abraço.

  11. Sul 21 » A Morada do Ser Says:

    [...] (José Antonio Küller – Liberdade, Liberdade) [...]

  12. Dayse Vasconcelos Says:

    Eu adoraria consegui uma copia desse LP da peça Liberdade, Liberdade, ouvi “n” vezes e chegamos a decorar eu e minhas irmãs. Com o passar do tempo e as mudanças da vida, minha irmã mais velha, que era quem tinha o LP, casou e o levou consigo…dai por diante nunca mais vi ou ouvi….seria uma fantástica aquisição. Se alguem souber como posso conseguir, por favor me eniem as informações por email. dayanaguevara@gmail.com

    Obrigada,
    Dayse

  13. A MORADA DO SER | Revista Lusofonia Blog dos Países de Língua Portuguesa Says:

    […] (José Antonio Küller – Liberdade, Liberdade – http://josekuller.wordpress.com/3-liberdade-liberdade/) […]

  14. Mario Leão Says:

    Alguem poderia me enviar uma cópia do audio do LP? Meu endereço é mddl@ig.com.br ficaria imensamente grato pra sempre.

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