Parece que nos útimos dias, o blog inclina-se para o teatro. Também está de luto com a morte de Boal. Coisas fortes como essa parecem criar um viés imaginativo, senão energético. Procurando por um registro do dia 6 de maio de 1969, deparo-me com um texto que fala da morte de Cacilda Becker. Já que o tema é teatro e o penúltimo registro de morte, vai lá:
14 June, 2008 | Posted by: lucyannemano

“Cacilda morreu. O teatro, aqui mais do que qualquer das outras artes, é ingrato, pois não nos oferece sequer a possibilidade da retrospectiva que o cinema usa para honrar seus mortos. A cada um de nós, individualmente, a lembrança de Cacilda no palco poderá enriquecer ainda, e por muito tempo. Mas não poderemos oferecer às novas gerações a mesma experiência. E elas serão mais pobres por isso…
Não nos será mais possível, em nossos momentos de luta, contar com seu entusiasmo, com o brilho de seu olhar ou com o calor de sua emoção, ou a força de sua coragem. E nós seremos mais pobres por isso“.
Barbara Heliodora
O teatro brasileiro perdeu um de seus maiores expoentes de todos os tempos. A atriz paulista Cacilda Becker Yáconis, 48 anos, saiu prematuramente de cena, no auge da sua capacidade criadora, quando tudo levava a crer que ultrapassaria, nos futuros desempenhos, tudo que havia feito até então. Morreu após 38 dias de internação num quadro irreversível de derrame cerebral.

Quando tudo parecia definitivo, Cacilda Becker surpreendia com uma atitude inovadora, uma posição vanguardista, uma interpretação inesperada. Assim firmou-se fazendo da sua vida o teatro, e do teatro a sua vida. Exemplo de coragem, lucidez e intrépido espírito em defesa da cultura brasileira, atuou incansavelmente. Nem tudo foi fácil, nem tudo foi certo. Apenas verdadeiro. Se para o grande público o reconhecimento advinha da excelência da sua interpretação, ela foi decisiva para o amadurecimento da consciência profissional da classe teatral. Colocou-se aguerrida a serviço da arte dramática. Desgastou-se fisicamente, prejudicou-se economicamente, mas foi audaz até o fim na integridade e na dignificação do teatro brasileiro.

O súbito fim do último espetáculo
Uma Cacilda Becker maltrapilha, ou Estragon, personagem de Samuel Beckett, olha para seus pés machucados e geme, e a dor que quer transmitir parece ser sentida por todo o público. Walmor Chagas, ou Wladimir, também um mendigo, aparece, e se une a ela para juntos fazerem o que a platéia do teatro sabe ser absurdo, mas que não deixa de comovê-la, todas as noites: Esperar Godot. No fim do primeiro ato do espetáculo, no dia 6 de maio de 1969, Vladimir pergunta: “Então, vamos?” Estragon responde: “Vamos”. E a luz se apaga. Cacilda sai de cena para o intervalo, sente-se mal, e não volta mais aos palcos.
Tags: arte dramática, Boal, Cacilda Becker, cultura, cultura brasileira, Esperando Godot, espetáculo, palco, público, teatro
Maio 7, 2009 às 12:29 am |
Para mim, o teatro é uma arte poderosa que muitas vezes mexe fundo com nossa consciência, visões de mundo e daquilo que Balzac chamou de A COMÉDIA HUMANA, título de sua obra máxima.
Claro que isso depende da qualidade do texto e do espetáculo em todos os sentidos, mas depende também e fundamentalmente do espectador e suas necessidades de predisposições.
De minha parte posso dizer, sem medo de errar, que dois espetáculos teatrais mexeram muito comigo quando ainda um jovem universitário na década de 60.
A VIDA DE GALILEU, de Brecht, encenada no Teatro Oficina, em São Paulo em 1969 e O BALCÃO, encenada no Teatro Ruth Escobar totalmente reestruturado para a peça, em 1970, também em São Paulo. Ambos impactantes e por isso, para mim inesquecíveis!
Considero que a década de 60 foi marcada pela força do teatro “engajado” politicamente no sentido amplo da palavra. E que mais posts sobre essa poderosa e iluminadora arte seriam benvindos no blog.
Maio 14, 2009 às 1:08 pm |
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